Batman: História de Uma Sexualidade Escrutinada

Um empregado da Warner Bros., que se autointitula um “super fan” do Batman, está vazando, gradativamente, as páginas do roteiro do novo filme do super-herói como protesto ao fato de que nesta versão cinematográfica do Homem Morcego, Bruce Wayne seria gay. 

Assim sendo, muitos já se manifestam insana e euforicamente sobre o assunto. Se isto é verdade ou não, o interessante é que esta não é a primeira vez que a sexualidade de Bruce Wayne causa furor. A sexualidade do Batman é algo que vem chamando a atenção de críticos por muitos anos, e é isto o que explica Rich Goldstein em seu artigo publicado no Daily Beast em 26 de julho de 2014. Leia abaixo.

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“Santa Homofobia, Batman!” Uma Leitura Gay do Cavaleiro da Escuridão
Rich Goldstein

Batman usa collants e tem um guarda-costas bonitão que frequentemente se posta com a sua região genital discretamente em evidência. Mas sério, o quê importa se o guerreiro de capa é gay?

O Batman pode estar com 75 anos, mas o solteirão convicto ainda tá podendo vestir uma calça collant, abalar usando um protetor escrotal, e dar uns rolés noturnos com seus vários aprendizes adolescentes.

A editora DC Comics comemorou o aniversário com o lançamento de Batman: A Celebration of 75 Years (Batman: Uma Celebração de 75 Anos), uma coleção de publicações das várias Bat-eras, com curtas introduções de 2 páginas entre cada uma delas explicando a história da franquia durantes aquelas épocas. Será um ano inteiro de festividades Bat-nostálgicas, incluindo um gigantesca exibição dos adereços e indumentárias dos filmes na Comic-Con em San Diego.

Mas a memorabilia do Batman não é o único ítem oficial da longa carreira do guerreiro de capa a sair do armário. Os rumores sobre a sexualidade do personagem têm seguido o Cavaleiro da Escuridão através de sua história.

Vale a pena mencionar que o Batman é mais velho do que o termo ‘Gay’, mas por apenas alguns anos. Muito embora o termo já estivesse em uso coloquial, ele somente começou a aparecer na escrita durante os anos 40. O Dicionário de Etimologia sugere que o termo se originou entre mendigos viajantes conhecidos como “Gay Cats”, um grupo que também forneceu ao inglês dos EUA outros termos com insinuações sexuais, incluindo “tramp” [vagabunda], “fag” [bicha, viado], e “drag” [travestir]. Os críticos mais antigos do Batman nunca usaram o termo “gay”, ao invés, referiam-se ao vigilante mascarado como “homossexual” ou “homoerótico”.

O vazamento do roteiro deste último filme também não é a primeira vez que a sexualidade do Batman se torna assunto de discórdia. Em 1954, o Dr. Frederic Wertham fez a mesma afirmação em seu polêmico livro ‘Seduction of the Innocent’ (“A Sedução do Inocente”). Muito embora Wertham não tenha criado tal afirmação (ele a atribuiu a um “Psiquiatra da Califórnia” sem nome), seu livro examina a evidência de uma seleção de revistas do Batman e se concentra em torno de alguns argumentos básicos:

● Batman e Robin têm “uniformes especiais.”

● Às vezes Batman acaba na cama, machucado, e o jovem Robin é mostrado sentado ao seu lado.

● A mansão de Bruce Wayne está cheia de “flores lindas e grandes vasos”.

Dick Grayson percebe quando algo está errado com Bruce Wayne.

● “Assim como as moças em outras estórias, Robin às vezes é mantido em cativeiro pelos vilões”.

● Robin é bonitão.

● Robin frequentemente se planta com as pernas abertas, com a região genital discretamente em evidência.

● Quando uma mulher aparece nas estórias do Batman, “se ela for bonita, indubitavelmente ela é a vilã”.

● Um estudo de caso feito no “Quaker Emergency Service Readjustment Center” (Serviço de Emergência do Centro de Reajuste Quaker) descobriu que “o tipo de estórias do Batman pode estimular crianças à fantasias homossexuais”.

Deixando de lado neste momento o fato de que alguns dados do livro de Wertham tenham vindo de um “Centro de Reajuste” para infratores sexuais (muitos dos quais eram simplesmente homossexuais, algo considerado crime no estado de Nova York naquela época), a questão mais pertinente sobre a sexualidade do Batman seria: E daí? Por quê razão deveria importar se o Batman fosse homossexual?

Na época da publicação, a afirmação de Wertham de que as revistas do Batman “estimulam fantasias homossexuais nas crianças” foi a mais perturbadora para as autoridades e é frequentemente citada como razão primária para que o Senado dos EUA tenha aberto um inquérito sobre delinquência juvenil com um foco nas revistas em quadrinhos, no qual Wertham estrelou como testemunha principal. Entretanto, o Batman não foi mencionado em nenhum momento durante o testemunho de Wertham, e o médico só falou em homossexualidade uma só vez, quado disse ao comitê:

“Revistas em quadrinhos contribuem para a delinquência ensinando a técnica… como estuprar e seduzir moças, como ferir as pessoas, como invadir lojas, como trair, como forjar, como cometer qualquer crime por nós conhecido. Antigamente, danificar a moral era uma ofensa menor sujeita a punição. Mas esta se tornou uma indústria de massa. Eu digo que todo crime de delinquência é descrito em detalhes e que se você ensina a técnica de algo a alguém, você, é claro, seduz este alguém a praticar esta técnica. Ninguém acreditaria que você ensina homossexualidade a um garoto sem introduzi-lo a esta prática. Agora, as crianças que leem aquilo, são apenas seres humanos, e são, é claro, tentadas a esta prática e já a praticaram”.

Um dos críticos de Wertham, a Dra. Laura Bender, em seu testemunho perante o Senado minimizou a habilidade dos quadrinhos em influenciar o comportamento das crianças. Ela, usando seus próprios filhos como exemplo, disse que mesmo aqueles bem jovens são capazes de distinguir fantasia de realidade, dizendo aos senadores que “bem frequentemente os filmes de Walt Disney retratam figuras maternas bem perturbadoras. As mães sempre são mortas ou enviadas a um asilo de insanos nos filmes do Disney”. Tal problema ainda aflige os filmes da Disney nos dias de hoje. Uma recente reportagem no site da NPR (National Public Radio) sobre filmes infantis cita a abordagem ainda problemática que o Camundongo [Mickey] faz sobre a maternidade, sessenta anos após o testemunho da Dra. Bender.

Mais recentemente, um artigo do New York Times colocou as afirmações de Wertham em dúvida quando Carol L. Tilley, professora assistente da Universidade de Illinois, que ao analisar os trabalhos de Wertham, descobriu que ele tinha “indicado incorretamente a idade [dos indivíduos de seu estudo], combinou citações de entrevistas de muitas crianças para parecer que as frases vinham somente de um entrevistado e atribuiu comentários ditos por um único indivíduo a todo um grupo”. Wertham também deixou de mencionar detalhes pertinentes das vidas de seus pacientes, muitos dos quais tinham famílias com história de violência e de abuso de substâncias. Em outros casos ele simplesmente inventou evidências onde não havia nenhuma.

No mesmo artigo, o escritor Dave Itzkoff cita Michael Chabon, que pesquisou a história das revistas em quadrinhos para o seu aclamado livro The Amazing Adventures of Cavalier and Klay (“As Incríveis Aventuras de Cavalier e Klay”), afirmando que “embora Wertham tenha sido visto como ‘este quase caçador de bruxas McCarthyiano’, ele foi na verdade ‘um liberal extremamente bem intencionado, um homem progressista de várias maneiras’”. Wertham, assim como muitos liberais brancos “bem intencionados” da metade do século passado, eram frequentemente culpados por patologizar a cultura dos negros. O hospital Bellevue, onde ambos Wertham e Bender dedicaram parte de suas carreiras, foi um dos pioneiros no uso da terapia de choque no “tratamento” de crianças. Eventualmente, Wertham abriu a Clínica LaFargue no porão da Igreja Episcopal São Felipe no Harlem, fornecendo tratamento psiquiátrico de baixo custo para adolescentes negros.

Wertham concentrou a maioria de suas críticas na relação de Bruce Wayne/Batman com Dick Grayson/Robin, um personagem criado para atrair crianças à série de estórias e fazer de Batman um sujeito mais agradável. Sendo Robin um adolescente, os criadores da série adequadamente presumiram que o jovem herói serviria como um “sujeito comum” que era mais fácil de se identificar do que o seu mentor, o vigilante playboy milionário.

O quadrinhos originais do Batman, anteriores a criação do Comics Code Authority [algo como “Código Regulamentador de Revistas em Quadrinhos”] em 1954, eram muito mais violentos, onde o Batman frequentemente cometia assassinatos. Mas as implicações negativas de um cidadão civil vestindo uma fantasia e matando criminosos sem um julgamento, começaram a sair de moda quando a Segunda Guerra Mundial estourou na Europa. Até mesmo Woody Gurthrie, que era fortemente contra o sistema, mudou seu discurso e começou a cantar sobre dar um chute nos panzers do Hitler.

Mas assim como as guerras no Iraque e no Afeganistão da era atual levaram ao uso promíscuo do termo “traição”, o nevoeiro da Segunda Guerra levou que a acusação de fascismo fosse jogada contra algumas formas inofensivas de entretenimento, como as revistas em quadrinhos. Um mês após o Robin ter sido apresentado nos quadrinhos do Batman, o jornal The Chicago Daily News publicou um artigo de Sterling North com o título A National Disgrace (“Uma Desgraça Nacional”), o qual clamava aos pais e às figuras de autoridades a banir as revistas em quadrinhos “a não ser que queiramos uma futura geração ainda mais feroz do que a presente”. Até mesmo a revista Time se juntou ao coro, fazendo a seguinte pergunta no título de um editorial “Os Quadrinhos São Fascistas?”

A propaganda comercial dirigida à crianças é uma questão espinhosa que conta com críticos nos dois lados do campo político dos EUA. Vários países europeus, incluindo Suécia e Noruega, baniram a prática quando a criança em questão é menor de 12 anos. E o desejo de proteger os pré-adolescentes é em si um fenômeno recente, sendo que até o início do século 20 a maioria dos estados dos EUA considerava os 12 anos de idade como a idade de consentimento sexual. Antes de sua descriminalização, o sexo homossexual era ilegal independentemente da idade dos participantes.

Ainda, a tradição de um herói que tem um assistente jovem ou comum, remonta à antiguidade. Aquiles teve seu Patroclus, Quixote o seu Sancho, Jesus os seus apóstolos. Separando a velha negatividade associada à homossexualidade daquilo que é compreendido como ameaça à juventude, diz muito mais sobre a pessoa que abriga a acusação do que diz sobre o trabalho artístico. Se não há nada errado em ser gay, então o quê importa se Batman o seja? Em “A Sedução do Inocente”, Wertham cita o teste Rorschach como maneira pela qual o homoeroticismo nos quadrinhos é inoculado em seu público, mas a mesma denúncia poderia igualmente se aplicar ao psicólogo infantil que vê uma “ameaça gay” escondida atrás das lesões autoinfligidas exibidas pelas crianças sob o seu cuidado.

Se sexualidade, e preferências sexuais, são mais um espectro do quê uma série de clubes mutualmente exclusivos, então não importa necessariamente se o Batman é gay; entretanto, mesmo a mera sugestão tem o poder de levar os fãs do Batman a um frenesi. Homofóbicos de todas as partes da Internet lançaram ofensas odiosas à mera sugestão de que no próximo filme Batman vs. Superman, Ben Affleck protagonizaria um Batman gay. Grant Morrison, ex-escritor de Batman, após sugerir em entrevista para a Playboy que o Cavaleiro de Capa poderia ser gay, desmentiu seus comentários em diversas ocasiões. Até mesmo a DC Comics expressou objeção ameaçando processar judicialmente a Kathleen Cullen Fine Arts Gallery em Nova York, quando a galeria de artes expôs a série de retratos homoeróticos do artista Mark Chamberlain que mostrava Batman e Robin semi-vestidos.

E assim, a pergunta continua: O Batman é gay?

Na SwiftKey, um time de pesquisadores digitaram todos os diálogos, balões de pensamentos, e as narrações das revistas em quadrinhos do Batman e criaram um nuvem de palavras. Não as palavras mais frequentemente usadas, mas sim as palavras mais frequentemente usadas em exagero foram comparadas à frequência em que os usuários medianos da língua inglesa as usam.

Os nomes dos vilões figuraram proeminentemente na nuvem, bem como palavras como “crime”, “assassinato”, and “gems” [gema, pérola, joia]. Na nuvem de palavras não constou o uso claro ou ostensivo de nenhuma referências ao sexo ou à sexualidade.

Graças ao fato de que a DC Comics relançou as antigas edições dos quadrinhos do Batman na coleção de comemoração do 75 anos do super-herói, é possível dar uma olhada na fase antiga do personagem, isto é, diretamente na fonte da controvérsia.

Na verdade, os antigos quadrinhos do Batman são bem vagos. Os diálogos, a narração, e as ilustrações são mínimas. A Era de Ouro dos quadrinhos às vezes omitia boa parte da ação, tal como o Batman sugerindo um plano excessivamente complicado e depois pulando para o próximo quadrinho que apresentava o resultado bem sucedido. Os crimes que os vilões cometiam eram simples roubos que às vezes envolviam assassinatos, e na clássica tradição cinematográfica, havia uma donzela em perigo. As estórias eram mínimas que qualquer coisa poderia ser projetada nelas e poderiam ser imbuídas de significados importantes por quem as observasse.

Sendo assim, nos quadrinhos antigos não faltavam cenas sugestivas entre Bruce Wayne e Dick Grayson, incluindo cenas dos dois dormindo na mesma cama, carregando um ao outro para um local seguro, e geralmente passando a maior parte do tempo mascarados em uniformes bem apertados como órfãos de pais assassinados, cheios de grana e sem filhos.

O testemunho de Wertham no Congresso é frequentemente citado por causa do efeito que este teve para o estabelecimento do Comics Code Authority. Similarmente à negociação da Motion Picture Association of America [Associação Cinematográfica Americana], o Comics Code permitiu representantes da indústria de quadrinhos a auto-regularem as mensagens potencialmente nocivas de suas publicações. A DC Comics, a criadora e dona do Batman, foi uma das últimas companhias a deixar de aderir as normas do Comics Code Authority em janeiro de 2011. Um número significante de editoras de revistas em quadrinhos cessaram suas atividades, em particular a EC Comics, sob a direção de William Gaines, dona de títulos que incluem Tales from the Crypt [“Contos da Cripta”], The Vault of Horror [“O Cofre do Horror”], entrando em falência um ano após a implementação do Código.

O Batman sobreviveu, e a DC Comics lançou a Batwoman, e mais tarde a Batgirl, para que todos estivessem certos de que não estava rolando nada de errado. Mas os quadrinhos continuariam sendo motivo de tormento para os americanos, incluindo para o ex diretor do FBI, J. Edgar Hoover, que continuaria sua guerra contra as revistas em quadrinhos até os anos 60, ao mesmo tempo em que negava a existência do crime organizado nos EUA.

Perguntar se Batman é gay é a resposta, não a pergunta. Esta é uma jornada de 75 anos de um personagem que tem pelo menos duas identidades e uma quantidade aparentemente ilimitada de tempo para explorar as implicações de sua vida fraturada.

Mas, e para os literalistas que simplesmente precisam saber, que precisam olhar atrás da cortina, que precisam ver se o mundo de Oz é real ou uma farsa? Se um Batman gay te deixa zangado, então sim, o Batman é gay.

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c&p

4 comentários:

  1. É cada uma... agora eles querem "engueizar" todos os super-heróis....

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    1. Bem, o artigo de Goldstein não parece querer “engayzar” o Batman, mas primeiramente, seu texto observa que nos 75 anos do super-herói tal rumor sempre esteve presente, tendo o homem morcego sobrevivido a eles com sucesso.

      Curiosidade: quais os outros super-heróis que estão sendo “engayzados”?

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    2. Estamos re-postando este comentário de um leitor Anônimo—que foi acidentalmente excluído:

      Qualquer um que possa ser usado pra chamar atenção.
      O simples fato de um pessoa preferir o celibato ela é rotulada como gay. Para um vingador estilo do Batman ligações amorosas estáveis podem prejudicar seu trabalho, o temor de qualquer um é ter um ente querido usado como escudo de um meliante. O fato de ele ter um parceiro é que nem um policial opera sozinho.
      Ter alguém do mesmo sexo se preocupando com seu bem-estar não é peso para se taxar de homossexualismo.
      Tudo isso começa com estigma cultural que macho que é macho não precisa de ninguém, ninguém encosta nele.

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  2. Muito bom o texto

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