“Um Conjunto de Habilidades Muito Especiais”: O Poderoso Discurso do Filme ‘Busca Implacável’ (2008)


Bryan Mills diz: “Eu vou te encontrar, e eu vou te matar”.

A trilogia cinematográfica “Busca Implacável” (Taken, título original que significa “tomada” no sentido de “raptada”) está completa. Sim, Busca Implacável 3 já está aí. A saga de ação em três partes de um homem que resgata sua filha de uma rede de prostituição internacional na França, no primeiro filme, e que no segundo filme resgata novamente a sua filha e a sua esposa da família dos homens que ele enfrentou e matou no primeiro filme, e que agora neste terceiro ato tem que provar sua inocência no assassinato de sua mulher e proteger—novamente—a sua filha, talvez tenha se tornado altamente popular por uma boa e simples razão: o fantástico discurso escrito para o primeiro filme de 2008.

Sim, a famosa cena do telefone no Busca Implacável 1 na qual Liam Neeson promete ao sequestrador de sua filha que irá o encontrar e, matá-lo.

Com o lançamento de Busca Implacável 3, o escritor Stephen Marche em seu artigo publicado no dia 8 de janeiro deste ano na revista Esquire, analisa o hoje já famoso discurso do personagem Bryan Mills, interpretado pelo irlandês Liam Neeson. Leia abaixo.


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“Um Conjunto de Habilidades Bem Especiais”: Revisitando o Incrível Discurso de Taken [“Busca Implacável”]

Por Stephen Marche

Retórica, teu professor é o Nesson.

“Eu não sei quem você é. Eu não sei o que você quer. Se você estiver pensando em pedir resgate eu posso afirmar que eu não tenho dinheiro, mas o que eu tenho é um conjunto de habilidades muito especiais que eu adquiri ao longo de uma carreira muito longa. Habilidades que me tornam um pesadelo para pessoas como você. Se você soltar a minha filha agora, esta estória termina aqui. Eu não vou te procurar, eu não vou te perseguir, mas caso contrário, eu vou te procurar, eu vou te encontrar e eu vou te matar”.
—Liam Neeson, Taken [“Busca Implacável”]

‘Busca Implacável’ é o raro caso de uma franchise cinematográfica que nasceu de um simples discurso. Este é um dos poucos filmes em que os fãs citam não somente frases, mas sim blocos de textos inteiros do roteiro. Baseado na força daquela única cena, Liam Neeson basicamente substituiu Harrison Ford no gênero “família em perigo”. Os filmes de suspense/ação de Harrison Ford dos anos 90 pelo menos se davam ao luxo de apresentar tramas e personagens independentes. Com o lançamento de ‘Busca Implacável 3’ neste fim-de-semana, a absurdidade de repetição do filme ultrapassou um novo limiar. A gente já entendeu: Mulheres precisam ser salvas. Aqui está o homem que pode salvá-las. Perseguição de carros é o resultado. Uma briga de socos segue a perseguição de carros. E nesse momento, o Serviço Secreto já teria sido acionado.




Ainda assim, o discurso do original ‘Busca Implacável’ (2008) foi brilhante, e foi brilhante de uma forma quase nunca vista nos filmes. Foi uma peça de retórica classicamente estruturada, um solilóquio no estilo Tarantino mas drenado de comédia. Aristóteles teria adorado esse discurso. E ele segue a mesma estrutura e usa as mesmas técnicas de dois dos maiores discursos do século 20, se bem que estes dois outros são muito mais importantes daquilo que se é encontrado em um filme-pipoca: “We Shall Fight on the Beaches” [“Nós Lutaremos nas Praias”] de Winston Churchill e “I Have a Dream” [“Eu Tenho um Sonho”] de Martin Luther King, Jr..

Esses discursos são incrivelmente semelhantes muito embora as situações pelas quais eles emergem não poderiam ser mais diferentes. Os oradores repetem frases (“Eu vou”, “Nós”, “Eu tenho um sonho”). Essas frases são preditivas; são faladas no tempo futuro. Os discursos são expressados de maneira muito simples, quase sem grandes palavras. Eles combinam o abstrato (“especial conjunto de habilidades”, “a crescente confiança e a crescente força”, “o Senhor será revelado”) com detalhes físicos (“eu vou te encontrar e eu vou te matar”, “nós lutaremos nos montes”, “meninos negros e meninas negras”). Eles também são proferidos de forma incrivelmente lenta. Winston Churchill e Martin Luther King Jr. discursaram enquanto enfrentavam momentos desesperados de acerto público de contas, Liam Neeson discursou no início do segundo ato de um filme de ação internacional medíocre. E ainda assim a maneira de falar—a técnica—é exatamente a mesma.

As razões pelas quais o discurso de ‘Busca Implacável’ funciona tão incrivelmente bem, as razões pelas quais todo mundo se lembra dele, são as mesmas razões pelas quais as pessoas se lembram de outros grandes discursos: Estas estruturas retóricas são incorporadas às subestruturas de nossa consciência e sempre funcionam. O fato do discurso de ‘Busca Implacável’ ocorrer em um filme de ação não deve disfarçar a sua perfeita competência artística. Talvez não seja à toa que o filme mereceu duas sequências. Por outro lado, o discurso ainda funciona quando você o lê com a voz do Caco, o Sapo:

[Veja Seth MacFarlane no programa de Graham Norton na BBC, imitando Caco o Sapo como orador do discurso de ‘Busca Implacável’. Em inglês…]





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Leia o discurso de Martin Luther King Jr. “I Have a Dream” clicando aqui.

Leia parte do discurso de Winston Churchill “We Shall Fight on the Beaches”, clicando aqui.

c&p

Fonte: Esquire.

2 comentários:

  1. A história pode ser batida e tudo mais (sobre ele sempre estar salvando sua filha), mas o filme é realmente muito bom.

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    1. Sem dúvida Ultrapixe. O filme é “entretenimento” puro. Caso se espere algo mais além de adrenalina deste tipo filme de ação, será pura decepção.

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