Valente (2012), Uma Princesinha Feminista?









Tenho 2 sobrinhas de 3 e 4 anos, e 3 sobrinhos maiores do que elas mas ainda abaixo dos 10 anos de idade. As diferenças entre eles (meninos e meninas) são imensas, desde o tipo de brincadeiras até as formas de se expressarem enquanto seres humanos mirins. Mas essas são diferenças normais.

No entanto, poucos dias atrás, a sobrinha mais novinha me chamou aos gritos, dizendo, “tio,tio! Vem ver eu andar de bicicleta igual menino”. Fui vê-la realizar tal proeza para descobrir que andar de bicicleta igual a um menino, era nada mais do quê pedalar a bicicleta com o corpo esticado pra cima, quase em pé sobre os pedais.

Achei uma gracinha ela andando de bicleta daquele jeito, já que ela ainda não sabe pedalar perfeitamente, e principalmente por ela entender aquele estilo de andar de bicicleta como um estilo masculino, e tendo as pequenas rodinhas de auxílio ainda presas em sua bem pequena bicicleta. No entanto achei oportuno alertá-la de que menina também andava de bicicleta daquela maneira e que, portanto, aquele não era na verdade “andar de bicicleta igual menino”, mas tão somente uma maneira que todos usavam para andar de bicicleta. Em vão, ela não pareceu acreditar no que eu lhe dizia, mesmo tendo ela mesmo demonstrado que podia fazê-lo poucos segundos atrás. Mas consegui convencê-la de que ela conseguia andar de bicicleta “igual a uma menina ponderosa”, o quê para ela foi mais fácil de aceitar simplesmente pelo fato desta minha sobrinha ser uma grande fã da Anita.

Com certeza, este foi um exemplo interessante de que as diferentes normas de gênero que as crianças demonstram ainda quando bem novinhas, são, na verdade, impostas, já que nada poderia provar que aquela maneira de andar de bicicleta daquela maneira seria algo que somente os homens poderiam alcançar, biologicamente falando.

Mas o mais interessante, entretanto, é que hoje em dia além de brincar de boneca e simular as atividades maternas e femininas (usar muita maquiagem, algo que vem virando mania entre as meninas mais novinhas), poucas brincadeiras e brinquedos levam as meninas às atividades lúdicas desafiadoras, físico e intelectualmente falando. Enquanto preparamos as meninas para serem mães, pouco investimos para que elas sejam preparadas para a realidade adulta delas, que é igual a dos meninos, ou seja, o mercado de trabalho. Tratamos as meninas como princesas para que elas se tornarem princesas quando adultas. Mas nunca nos perguntamos: O quê uma princesa faz?

Já que hoje em dia nós preparamos as meninas para, basicamente serem “princesas” quando crescerem, foi muito animador assistir o filme de animação da Valente (2012) (Brave, no original), que reverte algumas das expectativas que hoje ainda se tem em relação às nossas pequenas princesas. Hoje em dia, este filme produzido pela Walt Disney/Pixar, pode ser tão necessário para as meninas quanto para suas mães, já que ele explora o preparo e as expectativas do que a se é esperado de uma princesa (neste caso, uma verdadeira princesa da era medieval).

O filme mostra a estória do grande esfoço e dedicação que a rainha Elinor prepara sua filha desde cedo, a princesa Merida, para desempenhar o seu papel no reino. Mas o pai, vendo o espírito aventureiro e desbravador de sua pequena filha, de cabelos ruivos e encaracolados, lhe desperta a paixão pelo arco e flexa quando lhe dá um arco de presente de aniversário quando esta ainda era uma menininha. Atitude que leva a Rainha Elinor a exclamar que aquilo “não era um presente para uma princesa”. Merida, no entanto se torna uma excelente arqueira, talvez a melhor de todo o reino.



A princesa Merida cresce e entra na adolescência para desafiar as normas, e se rebela ao descobrir que sua mãe está preparando a cerimônia que escolherá seu futuro marido dentre os outros 3 clãs que formam o reino, uma tradição que significava a segurança e harmonia do reino já por muitos e muitos anos. Merida, não se achando preparada para escolher um marido, não pensa duas vezes em tentar mudar seu destino. Para isso ela decide usar um feitiço para mudar sua mãe, feitiço que ela recebe de uma bruxa que encontra na floresta. Mas sem especificar para a bruxa qual era a mudança que ela esperava, o feitiço muda, ou melhor, transforma a rainha em uma enorme ursa cinza, ao mesmo tempo em que ocorrem a cerimônia que escolheria o futuro príncipe.

Durante toda a estória de Merida, a princesa nunca está imóvel em uma posição de perigo esperando seu príncipe encantado resgatá-la de alguma ameaça.. Além da não passividade típica das histórias de princesas, Merida desafia seu destino e consegue mudá-lo através de seu intelecto e de suas habilidades físicas. A relação dela com sua mãe, também é transformada, depois da rainha ter experiências “primitiva” de uma mãe enquanto vive na pele de uma ursa.

O filme não faz Merida usar as típicas características masculinas para conseguir seus objetivos, mas mostra uma personagem corajosa, brava, valente, ou seja, as qualidades que a fazem capaz de lutar pelo o que ela acha certo e por seu destino. Sem nenhuma dúvida, este filme além de ser muito agradável de assistir pode ajudar as meninas a encontrar um verdadeiro significado para o quê é ser princesa.

E com relação a achar um príncipe? Como Merida mesmo diria, somente quando ela “estiver pronta”. Isso mesmo, o filme não termina com um lindo casamento.

No entanto, questões técnicas e temáticas do filme deixam claro que ainda não há uma animação de aventura produzida pelos grandes estúdios onde as meninas, ou princesas, possam mostrar seu potencial feminino para, talvez quem sabe, salvar o mundo assim como muitos personagens masculinos o fazem nos filmes infantis. Mesmo sendo um filme muito legal e divertido, Valente mostra que uma personagem de aventuras para as meninas ainda tende a se limitar aos conflitos do universo da família e a alguns outros clichés, como a adolescente rebelde que tem que lutar para desfazer seus próprios erros.

Merida, seu pai, sua mãe, e seus irmãos trigêmeos.

Mas, dentro do contexto brasileiro onde as diferenças de gênero em relação à infância ainda assemelham-se grotescamente àquelas construídas no século 19, mesmo estando vivendo o primeiro mandato de uma mulher Presidente da nação, o filme e sua personagem ainda podem cumprir uma função positiva nas mentes das nossas meninas, que ainda hoje estão sendo preparadas quase que unicamente para engravidar, serem mães e esposas, e a imitar os meninos em seus esforços de participação e mudança sociais. Isso pode elevar a noção de “poderosa” para muito além do contexto das roupas e dos movimentos de danças sensuais.

Depois que convenci minha sobrinha que ela andava de bicleta igual a uma menina poderosa, consegui deixá-la feliz e quase nervosa quando lhe dei um carrinho em miniatura, ao que ela me disse gaguejando, “eu já bem vi uma moça dirigindo um carro na rua!”

Por isso acho que ela gostará da princesa Merida, Já que esta nova princesa da Disney/Pixar também é uma excelente amazona, que cavalga lindamente o seu cavalo chamado Angus (Talvez melhor do que muitos meninos do reino).


c&p



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