Traduções de Filmes e Séries Nos Fazem Crer Que Ninguém Fala Palavrão Nos EUA

Cena do Filme ‘Snakes on a Plane’ (“Serpentes a Bordo”) de 2006, em que o personagem Neville Flynn, interpretado por Samuel L. Jackson, já cansado de lidar com as serpentes soltas dentro do avião, grita, “Estou farto destas filhas da p**a de serpentes, dentro do filha da pu**ta deste avião! Apertem o sinto que eu vou quebrar a po**a de umas janelas”.

Ninguém Fala Palavrão Nos EUA? De acordo com legendas e dublagens em português para os filmes e séries de TV produzidos nos EUA, ninguém naquele país fala palavrão. Quem lucra com tal censura?


O episódio “Refém” do grupo “Porta dos Fundos”, apresentado neste ano na íntegra no canal FX e em capítulos no canal da trupe no Youtube, foi uma das melhores coisas que o grupo já fez. Fora a qualidade cômica da peça, “Refém” revela um fato sobre o brasileiro comum contemporâneo: o palavrão.


Várias produções cinematográficas brasileiras têm um ou mais personagens que xingam alto e em bom som. Geralmente isso é uma forma de representar linguisticamente os personagens mais pobres, os bandidos, e raramente são associados aos personagens das classes mais abastadas. Fato que verdadeiramente não corresponde à realidade.

Membros da nossa elite social e financeira falam palavrão em público, como no ano passado quando uma socialite que na “internet” mandou o presidente Lula tomar no “cú” pois estava indignada, esquecendo-se que “cu” não leva acento agudo. Ou mesmo a galera do setor VIP Itaú do estádio que abrigou a abertura da Copa do Mundo de 2014 que também mandou a presidenta Dilma também tomar no cu.

Todos—ou quase todos—falam palavrões, seja em público, ou seja escondido. Às vezes falamos palavras de baixo calão em meio a um grupo de pessoas, mas junto a um outro grupo não o fazemos por uma simples questão de protocolo social.

Isso também é verdade em relação a outros países. Assim como “Refém” produzida pela trupe Porta dos Fundos, as produções internacionais, mais evidentemente as dos Estados Unidos por terem maior penetração no Brasil, o linguajar baixo reflete a linguagem usada no dia-a-dia pelo cidadão comum.

As pessoas xingam mais abertamente na nossa atual realidade. Diferentemente da época de ouro de Hollywood, onde até mesmos os mafiosos não ousavam dizer um palavrão, nas últimas (digamos, 30) décadas houve um crescimento do uso a palavra inglesa fuck na dramaturgia cinematográfica estadunidense.

Hoje em dia, a palavra é constantemente usada em suas mais variadas formas. Essas variadas formas de fuck correspondem ao nosso verbo “foder” e sua forma no substantivo, e aos substantivos femininos “porra” e “merda”, palavras que são todas sempre traduzidas nas legendas com expressões de sexo e de raiva mais asseadas no português, como “transa”, “droga”, e “maldita”.


Abaixo “The Wolf of Wall Street - The FUCKing Short Version”, uma versão curta do Filme “O Lobo de Wall Street” (2013) que edita e junta todos os “fucks” do filme, do usuário do Youtube DropCut.
 

Um outro exemplo seria a palavra bitch, que literalmente significa “cadela”, mas que hoje nos EUA é um adjetivo de diferentes significados pejorativos. A palavra também corresponderia ao português “puta” mas pode também significar uma mulher extremamente difícil de se lidar, ou apenas uma mulher poderosa. Assim, no português, bitch poderia ser traduzida como “cachorra”, “puta”, “piranha” etc. e chegar até as expressões menos vulgares, como “chata”, “perturbada” e “problemática”, ou a expressão menos sutil “vaca”, hoje em dia usada para se referir a uma mulher com poder por pessoas que condenam sua política. Porém, nas versões em português presentes em legendas e dublagens, por razões duvidosas, bitch SEMPRE e UNICAMENTE significará “vadia”.

Até mesmo a palavra shit, que literal e meramente significa “merda” é geralmente traduzida como “droga”.

Os estadunidenses também falam palavrão. E muito. Eles falam tão alto e em bom som como os brasileiros. E se o estadunidense fala palavrão e o brasileiro também fala palavrão, por que então as legendas e dublagens evitam as “palavras grandes” de forma tão veemente?

Mesmo não sabendo dizer a quem interessaria nos fazer crer que todos os cidadãos dos EUA são mais polidos e educados, e bem melhor providos de “boas maneiras” do que nós—seja lá o que isto significa—, é evidente o fato de que há uma sanitarização linguística das produções audiovisuais que vêm dos EUA e que são transmitidas ao público brasileiro.

Seria prudente afirmar que a culpa não é dos tradutores para legendas e dublagens. Não é deles tal decisão. Esses, na verdade, são os peões da pirâmide da hoje milionária área de tradução para as grandes produções cinematográficas e das séries de TV, e assim sendo, eles somente seguem um tipo de acordo linguístico instaurado dentro daquela indústria. Isso fica claro quando comparamos uma legenda feita para ser transmitida no cinema ou em um canal de TV com as legendas piratas disponíveis em algum portal da internet.

Em uma boa trama de conspiração, se especularia sobre a existência de um complô tramado entre a embaixada dos EUA e os grandes estúdios de Hollywood para passar um boa imagem do país internacionalmente. Ou talvez tal trama mostrasse puritanos gerenciando empresas de legendagem e dublagem no Brasil privilegiando uma versão limpa do cotidiano de milhões. Ou talvez mostrasse puritanos envolvidos em uma missão educacional para exterminar a linguagem vulgar do nosso dia-a-dia contratando os serviços de empresas de legendagem e dublagem.

Já fora da sedutora área das teorias conspiratórias e sendo bem mais realista, é bem mais fácil pensar na sanitarização linguística das legendas e dublagens simplesmente como uma técnica de venda de produtos e serviços que evita ao máximo tanto as críticas quanto as grandes polêmicas envolvendo a boa moral e os bons e costumes.

O mais sério e pouco falado é que independentemente de quem e por quais razões a faz, a sanitarização linguística de um filme ou uma série de TV nada menos é que uma enorme interferência em uma obra artística; uma intromissão que pode causar distorções gigantescas na obra original. Uma versão limpa, sem palavrões pode fazer mudanças drásticas em um roteiro; pode modificar o significado e o contexto de toda uma cena; ela pode por completo descaracterizar um personagem e sua evolução dentro da trama.

Diferentes emoções levam a diferentes expressões faciais e corporais, e da mesma forma pode levar a diferentes formas de expressão verbal de um personagem. Quem fala um palavrão, o faz por um motivo, por uma razão. É claro que nos filmes, às vezes xinga-se pela gratuidade cômica, mas como na vida real, muitas vezes xinga-se por fatores emocionais: raiva, estresse, indignação, ou até mesmo por uma extrema felicidade. Certamente os tradutores sentem isso quando vão passo-a-passo pelo texto, e eles devem sofrer ao ter que usar um “dane-se, seu idiota!” quando um personagem exclama em inglês um enfurecido “fuck you, you fucking piece of shit!

Assim como é difícil imaginar o renomado filme “O Lobo de Wall Street” (2013), do cultuado diretor Martin Scorsese, sem os seus 569 usos variados da palavra fuck, quem poderia imaginar o episódio “Refém” sem aqueles palavrões ditos de forma tão rica e suculenta?

Assim como a violência da vida real, as produções audiovisuais exploram, retratam e refletem uma realidade violenta—às vezes desnecessariamente, cabendo profundas discussões. O mesmo não seria verdade para os palavrões?

O fato das legendas e dublagens não corresponderem a obra artística original não é meramente uma questão da eterna luta entre moderninhos e caretas, mas sim uma questão de censura e de integridade da obra artística.

Saber quem lucra com tal censura ao palavrão talvez não seja algo tão fácil ou mesmo relevante, assim como não o é saber qual a exata razão para tal. Porém, o fato de que o público dos filmes e das séries estadunidenses no Brasil é forçado a consumir produtos culturais adulterados, parece ser altamente evidente e relevante.


Ainda assim seria coerente afirmar que nos canais abertos de televisão, o uso de palavras de baixo calão em determinados horários podem realmente soar feio e vulgar e indecente, e certamente questionaria a integridade das concessões públicas de redes de televisão—mas que poderia ser facilmente resolvido com um ‘bip’ eletrônico sobre o áudio. Entretanto, nos cinemas e principalmente nos custosos canais pagos, com todos os seus recursos disponíveis para o não acesso a programas classificados como impróprios para determinadas idades e gostos, a censura aos palavrões em contraponto ao passe-livre às cenas mostrando o uso de drogas, cenas eróticas, e cenas de violência, além de hipócrita soa apenas como pura tolice.

c&p

6 comentários:

  1. De fato, na verdade existem outros usos para bitch, eu usava muito entre amigos próximos quando estive nos estados unidos para demonstrar o quão íntimo era de alguém, como: Hi, bitch, You are great bitch motha fucker. Fuck virou quase sinônimo para designar alegria, como: This is fucking amazing, This is fucking beautiful, etc.
    Existe um relacionamento diferente com o palavrão nos EUA, lá eles usam palavrão diariamente e o peso que dão as palavras depende de várias coisas, como intimidade, situação, cultura local e estado de espírito. No bible belt é complicado usar palavrões em determinadas em milhares de situações, já na California e Nova York xingar é quase um dever moral.
    E acho que a liberdade de expressão nos EUA é bem maior que no Brasil, em muitos sentidos você consegue se expressar melhor lá em qualquer área, realmente o americano médio é bem aberto a isso.
    Não sei porque existe tanta merda com essa porra de assunto! Com o perdão da palavra é claro :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, Marcelo. Com certeza existem outras formas de uso de qualquer palavrão que dependerão também do contexto no qual estes são usados--além do intuito ou não de ofender. Não sei se nos EUA usa-se mais ou menos palavrão, o importante é que sabemos que falam e isso geralmente é velado pelas companhias que oferecem o serviço de legendagem e dublagem no Brasil.

      No Brasil escuto palavrão diariamente--menos na televisão!

      Valeu mesmo o seu comentário! Um abraço.

      Excluir
  2. Olá, muito bacana seu post de fato aqui no brasil as coisas são piores!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Flávia,

      Bem, esta generalização que você faz é uma questão de percepção indivial, muito embora, sim, algumas coisas no Brasil são piores. Porém, caso você esteja comparando o Brasil com os EUA, seguindo o argumento de nossa postagem, é necessário lembrar que os estadunidenses detestam legendas, e um percentual bem baixo deles consome produções áudio-visuais estrangeiras. Assim, não dá para saber se aqui é pior do que lá, neste aspecto específico.

      Valeu pelo comentário.

      Excluir
  3. Parabéns pelo texto. Um verdadeiro "tratado".
    Também a mim sempre incomodou - e continua incomodando - esse "recato" nas traduções, sejam em filmes dublados ou legendados (nos dublados a coisa é ainda pior, como se o a palavra chula dita em alto e bom som fosse mais incomodativa do que sua versão escrita, exibida ao pé da tela).
    Em filmes como os do impagável seriado THE SOPRANOS, os mafiosos rasgavam o verbo, inclusive as mulheres, e ainda assim os tradutores pareciam estar tratando de conversas de velhinhas ou de crianças impúberes (quando falam na presença de outras pessoas, naturalmente, já que entre seus pares a história é outra).
    Enfim, dói no ouvido ouvir as personagens esbravejarem sonoros "crap", "shit", motherfucker", ou adicionarem um oportuno "fucking" antes de cada substantivo e ler na legenda (ou ouvir, nas cópias dubladas) algo como "droga", "filho da mãe" (quando não um anacrônico "bastardo"), "porcaria", e assim por diante.
    Já não basta o fato de muitos dubladores (nem todos, felizmente) estragarem o clima do filme por não reproduzir a entonação adequada? Até quando precisamos dessa descabida "censura prévia", ranço da ditadura militar que, supostamente, terminou na década de 80?
    O jeito é assistir aos filmes com a trilha sonora original e legenda em português, já que, no meu caso, sem esse recurso é impossível acompanhar adequadamente a trama, pois, embora não tenha grandes dificuldades para ler textos em inglês, há muito que, por absoluta falta de prática, perdi o "ouvido" para esse idioma.
    Parabéns, mais uma vez, pela postagem.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Fernando,

      Sem dúvida, a série "The Sopranos" é um exemplo de como o 'drama' perde quando os palavrões são retirados.

      Obrigado pelo comentário.

      Excluir

('Trollagens' e comentários Desrespeitosos e Ofensivos não serão publicados):