George W. Bush: De Presidente Desastroso a Pintor Naïve


Auto Retrato de George W. Bush, Presidente dos Estados Unidos de 2001 a 2009.
(Fotografia: Grant Miller, Reprodução/Internet).


Durante sua era presidencial de oito anos, o ex-presidente dos Estados Unidos pintou e bordou: Invadiu o Iraque através de boatos oficiais, criou leis restritivas dos direitos civis dentro do seu próprio país, falou mil besteiras, pagou muito mico durante viagens diplomáticas, desestabilizou a economia, e por aí vai. Mas depois disso tudo ele quer ser também reconhecido como um artista plástico. Agora ele é oficialmente um pintor.

Sua exibição de estréia no mundo das artes recebeu o título The Art of Leadership: A President’s Personal Diplomacy (“A Arte da Liderança: A Diplomacia Pessoal de Um Presidente”), e foi inaugurada no sábado, dia 5 de abril, em sua biblioteca presidencial em Dallas (nos EUA, cada presidente ao sair do governo recebe uma biblioteca pública que reúne e exibe objetos pessoais daquele ex-presidente, como um museu).

Esta seria a sua estréia oficial como pintor, mas sua arte já é conhecida. É sabido que o presidente vem pintando gatinhos e cachorrinhos por algum tempo e, no ano passado, várias fotos de suas pinturas foram hackeadas da conta de e-mail de sua irmã—onde foram encontrados e divulgados dois auto-retratos onde o ex-presidente se auto representa nu no banheiro (claro que nada explícito). Também no ano passado, GWB presenteou o apresentador Jay Leno com um quadro que ele pintou do famoso apresentador do programa de conversa fiada transmitido tarde da noite nos EUA.

Contudo, nesta exibição oficial GWB mostra sua série de pinturas de líderes mundiais com quem ele teve a chance de conhecer e, com alguns deles, interagir enormemente em suas políticas externas, como Tony Blair, o ex primeiro ministro britânico também chamado de cúmplice dos erros de Bush.

Tony Blair, Primeiro Ministro da Grã Bretanha de 1997 a 2007. Pintura de George W. Bush.
(Fotografia: Grant Miller, Reprodução/Internet).

Mas interessantemente, muitos jornalistas e colunistas de revistas e periódicos estadunidenses têm sido amigáveis ao artista GWB, e dizem que a pintura não é tão ruim, e que este é um processo de evolução de GWB no qual “a pessoa menos legal do planeta” vem se tornado um “verdadeiro ícone hipster”, como argumentou Julie Weiner na revista Vanity Fair citando outros vários exemplos e eventos que fazem parte do caráter “descolado” do ex-presidente.

Outros chegam a exaltar a alma artística de Bush, como é o caso de Adam Taylor do jornal The Washington Post que afirmou que “Bush se estabeleceu oficialmente como ‘artista’” e que o retrato de “Vladimir Putin é ótimo”. Imaginem que Taylor escreveu isso para o mesmo jornal que teve jornalistas nos anos 70 que se arriscaram para montar o caso Watergate contra o presidente Nixon.

Vladimir Putin, Presidente da Rússia de 2000 a 2008 e de 2012 até hoje, Primeiro Ministro da Rússia de 1999-2000 e de 2008-2012. Pintura de George W. Bush.
(Fotografia: Grant Miller, Reprodução/Internet).

Mas essa exaltação das pinturas de Bush é certamente puro exagero. Este é um exemplo de como os cidadãos dos EUA se sentem obrigados a perdoar seus presidentes, mesmos os que como Bush, que é considerado criminoso de guerra. Jonathan Jones, colunista do The Guardian, eu seu artigo entitulado “As Pinturas de George Bush: esta é a arte do Forrest Gump” fala sobre isso: “Americanos tendem a perdoar os seus presidents mais controversos. Esta generosidade nasce certamente de uma autoestima nacional. Se você vê o presidente como um monstro e não como uma pessoa, como você pode amar seus país?” Perdoar o presidente, então se torna uma questão patriótica? Pode ser que sim. Assim como o uso da arte pode ser um recurso publicitário para apagar o legado criminoso de GWB.

A arte pode ter sido gentil com o pintor e assassino Caravaggio. Mas Caravaggio, além de assassino tinha talento artístico e esse talento se tornou seu legado. Ao contrário, assim como o seu governo, as pinturas de GWB não são muito boas. Esta parece ser a opinião de muitos críticos de arte que nos últimos dias comentaram a exibição. A crítica Deborah Solomon disse ao Portal de notícias The Huffington Post: “Eu gostaria de dizer que elas são basicamente bem simplistas enquanto pinturas”, pois parecem ter sido concebidas através de um processo de projeção de fotografias em um painel e depois, simplesmente copiadas, um processo artisticamente válido, mas que no caso de GWB, não vai muito além depois do processo ser aplicado.

Hamid Karzai, Presidente do Afeganistão desde 2004. Pintura de George W. Bush.
(Fotografia: Grant Miller, Reprodução/Internet).

Douglas Lucas e Amy O’Neal escreveram para a revista online Salon:

“As pinturas são ruins parcialmente porque ele vê aqueles líderes como uma criança os veria. Ele é incapaz, emocional e tecnicamente, de observá-los bem e daí expressar o que aqueles líderes são independentemente de suas objetificações. Ele engaja com as pinturas sem nenhum requinte. Nestas pinturas ele está dizendo, ‘Nossa, esse cara tem um chapéu super maneiro’ (o líder afegão Hamid Karzai); ‘esta mulher é forte!’ (Ellen Johnson Sirleaf da Libéria), e por aí vai”.

Ellen Johnson Sirleaf, Presidente da Libéria desde 2006 e ganhadora do Nobel. Pintura de George W. Bush.
(Fotografia: Grant Miller, Reprodução/Internet).

O crítico de arte Jason Farago castiga GWB já no título de seu artigo sobre a exibição para o jornal inglês The Guardian: “Os Retratos dos Líderes Mundiais Pintados por George W. Bush: arte que não nos diz nada”. No artigo ele analisa e responde algumas das vozes que tentam explicar a significação de redenção política que esta exibição carrega:

“Alguns imaginam que a agitação sobre as pinturas de Bush faz parte de uma fome desesperada da nação para expiar os crimes imperdoáveis de sua presidência, como se uma representação de Bush enquanto um aposentado bonzinho com seu cavalete pudesse apagar a guerra ilegal, a obscena política econômica, a depredação ambiental, o sequestro do poder executivo, o afogamento de Nova Orleans. Não será assim. As pinturinhas de Bush serão esquecidas, ficarão batidas como outras milhares de imagens através de um incessante ciclo de notícias e amanhã serão substituídas pela nudez acidental de algum pop star ou pelos 17 animais mais fofos de todos os tempos. O governo Bush, ao contrário, permanecerá em todo nosso redor—e quando caminharmos através da plutocracia em colapso que ele nos deixou como legado, precisaremos mais do que estas pinturas debilitadas para aliviar nossa dor”.

George H. W. Bush, Presidente dos Estados Unidos de 1989 a 1993. Pintura de George W. Bush. O título da exibição tembém tem o traço da persona do pai de GWB, a quem ele sempre tentou agradar. O artista declara que moldou sua diplomacia pessoal no comportamento de seu pai.
(Fotografia: Grant Miller, Reprodução/Internet).

Jason Farago parece acertar ao acreditar que o legado de Bush como presidente não será apagado por suas obras de arte naïve, pois a simples proporção, dimensão e impacto no mundo diferenciam precisamente aquelas duas personas do ex-presidente. Como já foi debatido várias vezes durante e depois do governo GWB, talvez a sua falta de mérito como presidente se deva as mentes monstruosas que estavam por trás dele, como o ex-vice presidente Dick Cheney e o ex-secretário de defesa Donald Rumsfeld que em março deste ano declarou que Obama é um covarde por não ter invadido o Irã e que “um macaco treinado” seria mais habilidoso em política externa do que o atual presidente.

Por outro lado, a falta de mérito de GWB no mundo da arte pode ser devido ao fato de que o ex-presidente deveria ter dedicado mais tempo à pintura do que à política. De qualquer forma, podemos esperar que esta arte terapia não seja somente uma faceta publicitária e que realmente esteja servindo como uma reabilitação de consciência para George W. Bush. E é por isso que todas as discussões sobre o pintor George W. Bush serão sempre discussões sobre o presidente George W. Bush.


c&p

2 comentários:

  1. A única coisa em que lamento até o momento, é que ninguém ainda, enviou um míssil à residencia desta corja Bush!.

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    1. Oi Anônimo. Acredito que o que você lamenta não ter acontecido viesse a acontecer, só nos restaria lamentar as terríveis consequências que esse tal míssel traria para o resto do mundo. Vamos lamentar pelo atraso da paz, e desejar que ela chegue logo! Obrigado pelo comentário.

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