Velozes, Peitudas e Furiosas: O Clássico Filme de Russ Meyer “Faster, Pussycat! Kill! Kill!” (1965)

A atriz Tura Satana como a personagem Varla,
e no fundo o Porshe modelo 356 C do diretor Russ Meyer, usado no filme.

O diretor e ex-fotógrafo da revista Playboy, Russ Meyer (1922–2004), considerado um gênio do cinema “sexploração” dos anos 60 e 70, lançou três filmes em 1965. Um desses filmes se tornou o mais importante de sua carreira: “Faster, Pussycat! Kill! Kill!” (Rápido, Gatinha! Mate! Mate!). E este longa independente de 83 minutos e de orçamento minúsculo, algo em torno de US$ 45.000, marcou definitivamente a cultura pop americana.

O filme tem como tema central: carro velozes (Fast), sexo (Pussycat) e violência (Kill! Kill!), e foram estes três ingredientes que levaram o diretor a criar o título do filme, os quais segundo ele, são tudo que um filme necessita ter. Com isso Meyer nos oferece uma obra em que, de um lado temos carros velozes e altamente sexualizados junto à mulheres super sexys, grandiosas e de seios enormes e letais; e do outro lado, os homens que se encantam e se excitam com a beleza do corpo feminino, mas que ao mesmo tempo repudiam e se amendontram com a feminilidade empoderada. Estes são os personagens de um jogo violento de inversão dos papéis de gênero. “A supermulher contra o homem”, diz um trailer do filme.

Rosie, Varla e Billie.

A estória (sim, confesso gostar da palavra “estória”) criada por Meyer se encaixa nos gêneros do drama, do suspense, e também em um tipo de comédia quando vemos o filme através da combinação da temática “fêmea problemática” com o quê a escritora e ícone literária Nova Iorquina Susan Sontag, em um ensaio de 1964, denominou de “camp”: “é bom porque é horrível”.

Basicamente, o camp é aquilo que é criado com o intuito claro de ser ridículo, exagerado, de glamourizar o caráter de personagens peculiares, e de construir estilos e sensibilidades que se encaixam exatamente do lado de fora das normas estéticas da alta cultura. E Russ Meyer no seu “Faster, Pussycat! Kill! Kill!” construiu o perfeito clássico camp cinematográfico no bom estilo anos 60.

“Eu nunca tento nada, eu simplesmente faço,” diz Varla.

Desta maneira, o texto do filme é absurdo, ridículo e cômico, tornando-se um cliché de inúmeros clichés. O enredo também é absurdo, mas acabamos acreditando na possibilidade da trama pois sabemos como o ser-humano pode ser malvado e ganancioso e que dele podemos esperar qualquer coisa. No entanto é ainda possível se chocar em ver mulheres gostosonas portando tão alta dose de maldade. E no clássico de Meyer é isso que se vê, sem que logo no início do filme os expectadores sejam advertidos por uma narração que inicialmente diz, “Senhoras e senhores, bem-vindos à violência, à palavra e ao ato,” e termina lançando um alerta aos homens sobre um certo tipo de mulher:

“Maneje-a com cuidado e não baixe a guarda. Esta nova raça predatória espreita tanto sozinha quanto em bandos, operando em todos os níveis, à qualquer hora, em qualquer lugar. Quem são? Pode ser sua secretária, a recepcionista de seu médico… ou uma dançarina de boate!” (O quê as nossas avós chamariam de sirigaita.)

Mas estaria o diretor se referindo ao movimento feminista? Pela coincidência da época é impossível deixar de ler esta advertência como uma mensagem irônica aos machões avisando que as coisas estavam mudando, mesmo considerando o fato de que Russ Meyer rejeitasse qualquer interpretação acadêmica, ou mesmo feminista de suas obras, afirmando que fazia filmes somente por duas razões: “luxúria e dinheiro”.

Rosie, Varla e Billie trabalhando.

Mas é através da advertência da narração que chegamos à boate onde trabalham as três dançarinas go-go's, as personagens principais do filme: Varla, a líder do bando, de maquiagem pesada e de expressão sinistra interpretada por Tura Satana como o protótipo da Vamp; Rosie, a latina misteriosa de sotaque forte interpretada por Haji; e Billie, a loura vivida por Lori Williams.

As três decidem pegar seus velozes carros para encontrar no deserto da Califórnia o playground perfeito para curtirem uma folga e extravassarem o estress do trabalho. Varla dirige um Porsche, aquele modelo tesudo 356 C, que era do própio diretor e que ganha a maior parte da atenção automobilística no filme. Mas os outros carros também merecem consideração: Rosie pilota um Triumph TR3 e Billie um MG-A, outras duas poderosas máquinas de velocidade.


Durante tal corrida veloz e furiosa no deserto, elas encontram Tommy e Linda (vividos por Ray Barlow e Susan Bernard), um casal ingênuo e careta—principalmente se comparados à elas—e partem para um racha com Tommy que dirigindo um lindo MG-B é jogado pra fora da rota por Varla. Terminada a mini-corrida, Varla chama o cara pra briga e o mata com as próprias mãos (ela simplesmente quebra a espinha dele). Elas decidem, então, sequestrar a garota e vendê-la aos seus pais, revelando aí que as três gostosonas são na verdade um grande problema à solta no deserto.

Chegando a um posto de gasolina para abastecer suas máquinas, elas veem um senhor em cadeiras de rodas (Stuart Lancaster) acompanhado de seu filho musculoso-gostosão e abobalhado, personagem de nome “O Vegetal”, The Vegetable (interpretado por Dennis Busch), deixando o posto em uma camionete Willys Jeep Pick-Up, branca, modelo 1960.

Enquanto olha fundo o decote de Varla, o frentista do posto diz a ela o quanto ele gostaria de viajar e ver a América, e com ele ainda mirando seu decote, ela lhe diz, “você não vai encontrar a América aí não, Colombo!”

Mas é esse frentista (Mickey Foxx) quem direciona as três supermulheres à segunda parte do filme: ele conta a elas que aquele senhor de cadeira de rodas mora com seus dois filhos e guarda uma grande quantia de dinheiro em seu rancho. Então, para o rancho elas partem com um plano para pegar a grana do Velho (nome do personagem, The Old Man).

No rancho elas tentam seduzir os três machos como estratégia para descobrir onde a grana está guardada. Mas elas não podem imaginar que o velho também tem seu próprio plano sinistro guardado para as três. E aí o filme adentra em seu glorioso ato, onde há arremessos e golpes de facas, golpes de judô (ou de karatê), e o uso de um carro esportivo como arma letal. Na verdade uma das melhores cenas do filme é a que mostra o Vegetal (que no filme claramente representa a potência masculina), em uma luta de braço travada contra o possante Porshe de Varla para não ser esmagado contra um muro.

O Vegetal lutando contra o possante carro de Varla.

Bem, o final do filme é melhor não ser revelado e assim manter o fator surpresa intacto para aqueles que ainda não assistiram a famosa obra.

Mas claramente, como acontece com vários dos filmes classe B que se tornaram cult, “Faster, Pussycat! Kill! Kill!” recebeu e recebe críticas que vão do mais alto elogio àquelas que acham o filme uma total porcaria. Mas o filme tem um apelo cômico e intrigante que começa por seu título, mas também apresenta grandes méritos como os listados na crítica de Michel Gentil:

“Inventivos ângulos de câmera, uma montagem afiada, uma fotografia em preto e branco translúcida, uma trilha sonora maneira (a banda The Cramps fez sua versão do tema título original da banda The Bostwood, por exemplo), e um senso de auto-conhecimento sobre suas absurdidades e contradições, não menor que o interesse na mistura de fantasias masculinas com o medo envolvendo as mulheres. Então, no final, este não é um filme somente sobre peitões…”

Como bem poderia ter dito Susan Sontag, o filme “é tão ruim, tão ruim, que é ótimo”. Camp da melhor qualidade: Na cena em que todos jantam no rancho, a loura fatale Billie segurando o prato com partes de frango e com a voz sexy, pergunta para o Vegetal, “peito ou coxa, querido?”

Claro que tanto o senso de humor quanto a sensibilidade estética de algumas pessoas possam não ser mobilizados por este filme, ao mesmo tempo “Faster, Pussycat!” pode levar outros cinéfilos a entrar em sua longa lista de seguidores sem pestanejar. E a lista de fãs deste cult de Russ Meyer inclui John Waters, o diretor de filmes ultra-camp como “Pink Flamingo”, “Female Trouble” e “Hairspray”, que em sua biografia de 1981, “Shock Value”, declarou: “Faster, Pussycat! Kill! Kill!...é, sem dúvida nenhuma, o melhor filme já feito. É possivelmente melhor do que qualquer filme a ser feito no futuro”. O elogio ao filme traçado por Waters em sua biografia é considerado o fator que tornou “Faster, Pussycat” em um grande favorito nos câmpus universitários dos Estados Unidos.

O grande fã de filmes exploração Quentin Tarantino é outro fã do filme, e quem, segundo rumores de 2008, estaria planejando uma versão de “Faster, Pussycat!” bem mais obscena e que teria Kim Kardashian, Eva Mendes e Britney Spears nos papéis principais, o quê nunca foi confirmado por Tarantino. No entanto é possível detectar uma boa dose de inspiração do filme de Meyer no filme “A Prova de Morte” (Death Proof) de Tarantino de 2007, no qual 3 lindas mulheres são verdadeiramente obcecadas pelo seu carro-fetiche,Dodge Challenger modelo 1970—e quem se lembra da última cena do filme em que a personagem de Zoë Bell aplica um chute de gancho com giro na cara do personagem de Kurt Russell, derrubando-o de vez? Pois é... Tarantino realmente aprendeu com os mestres.

O fato é que o filme realmente vale a pena e deve ser assistido, pois nada como um filme com mulheres lindas, empoderadas, velozes e furiosas, regentes de suas sexualidades e de suas vidas. Ou seja, mulheres de peito.


c&p

Se você quiser assitir o filme, em uma versão completa com legendas em espanhol (não pude encontrar uma versão em poruguês), clique aqui.





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