O Vídeo ‘Too Many Cooks’ Virou Febre na Internet Porque é Arte?

(Imagem: Reprodução/Internet)

No dia 31 de outubro, às 4 da manhã nos EUA, o vídeo de 11 minutos Too Many Cooks (Muitos Cozinheiros, ou Cozinheiros em Demasia), foi ao ar no canal a cabo Adult Swim. No dia 6 de novembro ele já havia se tornado “viral”.

Criado e escrito por Caspar Kelly e produzido pela Williams Street Productions para o canal Adult SwimToo Many Cooks (TMC) vem chamando a atenção pela sua total esquisitice nostálgica, ou se preferirem, pela simples bizarrice absurda. Mas o impacto do vídeo no público e a sua já transformação em um “cult” da Internet, nos leva a pensar no mesmo enquanto uma crítica profunda sobre produção e consumo cultural na televisão.

Sam Adams, do Blog Indiewire, em seu artigo “’Too Many Cooks’: Paródia Barata de Série de Comédia se Transforma em Terror Existencial, e Derrete o Cérebro neste Processo,” diz que o “’infomercial’ bizarro do canal Adult Swim pode ser o futuro da TV, ou aquilo que finalmente irá destruí-la”.

Agora, aqueles que gostam de cultura pop, de séries de televisão, ou simplesmente gostam de algo alternativo, devem assistir o vídeo Too Many Cooks. Não precisa gostar, mas assistir talvez seja necessário.




O canal Adult Swim é conhecido por suas produções experimentais, por isso o TMC é estranho. O vídeo faz parte de uma série de infomercials fictícios produzidos pelo canal (infomercials = “infomerciais”, que significa propaganda comercial informativa, exatamente como aquelas dos produtos da Polyshop que irritam por serem longas).

É certo que a princípio, o vídeo funciona perfeitamente como uma paródia dos sitcoms (séries de comédia de situação) da televisão estadunidense dos anos 1970, 1980 e 1990, da Mulher Maravilha ao seriado Law & Order. Neste ponto Too Many Cooks soa estranho e repetitivo nos seus primeiros minutos por ser somente uma abertura-sem-fim de uma série de TV fictícia que apresenta os créditos de seus 60 personagens e seus respectivos atores, incluindo um casaco e uma torta. Um dos pontos altos do vídeo, como em vários programas de TV, é a música tema que gruda no cérebro que nem chiclete em sola de sapato; ou seja, gruda e irrita.

Em entrevista à revista Esquire de 7 de novembro último, Caspar Kelly responde a pergunta “Como é que surgiu a ideia para este vídeo?”:

Foi uma daquelas ideias de chuveiro que eu sei que o Andy Kaufman ou o David Letterman teriam—repetir algo até ficar irritante, e simplesmente continuar repetindo até ficar engraçado novamente. A ideia era pra ser uma abertura de uma série de comédia que não pára e continua adicionando personagens. Eu sabia que tínhamos essas vagas abertas para infomerciais de 11 minutos, e eu liguei pro pessoal do Adult Swim. Eles disseram: ‘Eu não sei se mesmo o Andy Kaufman poderia se safar fazendo algo assim por 11 minutos’, então eu comecei a elaborar todas essas outras coisas que rolam no vídeo”.

O vídeo é ao mesmo tempo uma elaborada paródia da televisão, uma explosão de surrealismo, e um inferno apocalíptico, segundo uma descrição feita pelo Site Vox. E esta descrição faz sentido.

Passados aproximadamente 2m e 10s, nota-se as interferências satíricas na representação da família (o pai e a mãe sendo bem íntimos de um outro casal) monógama padronizada nos programas de comédia até os anos 80 e 90. Chegando aos 4m e 13s de vídeo, a narrativa repetitiva toma uma outra direção que conduz o espectador a um inferno televisivo, também repetitivo, que utiliza a violência. A violência, através da figura de um assassino em série que paira desde o início, mas que surge mais forte durante a série policial, é colocada dentro da série de comédia, em desenhos animados, nos grandes dramas e novelões, na ficção científica, e é finalmente detectado como sendo parte de uma infecção quando colocado dentro das séries de médicos e hospitais.

Ou seja, o vídeo é um “sopão” de gêneros e de personagens. Mas além de mostrar a grande repetição que a televisão pode apresentar quando escolhe seguir a mesma receita, TMC apresenta viradas no enredo que transforma a TV convencional em uma TV surreal: um universo paralelo, ou uma outra dimensão onde todos os seriados e seus personagens coabitam, reagindo contra uma praga.

Quando se percebe que o vídeo também serve como uma crítica sobre o paladar do público, sobre o gosto dos consumidores de televisão, é que se sente um pequeno baque, um choque com a realidade de ser um telespectador. Basta olhar para os programas atuais, tais como Game of ThronesDexter, e Hannibal, por exemplo, para se ter uma ideia de como o público de hoje é altamente seduzido pelas séries que apresentam rituais sangrentos, mortes violentas, e pelos protagonistas masculinos de caráter duvidoso, os hoje conhecidos e venerados anti-heróis.

Não se pode negar que a televisão mudou radicalmente nas últimas 2 ou 3 décadas, e com a TV o gosto do telespectador por aquilo que é produzido também mudou, além desses últimos terem se tornado bem mais exigentes—hoje pode-se reclamar e dar palpites, pois os produtores prestam atenção.

Desta forma, na narrativa do TMC, a violência satirizada funciona quase como uma ponte que une o imaginário ingênuo dos programas dos anos 1970, 1980 e 1990 à violência dos dias atuais. De certa forma, TMC é perturbador ao mesmo tempo em que é engraçado; o velho humor negro.

O vídeo vem sendo celebrado por muitos, e odiado por tantos outros. Ou seja, as pessoas estão discutindo o Too Many Cooks aos montes. Gostando ou não, incomodadas ou não, as pessoas estão assistindo e comentando.

O vídeo ganhou tanta atenção que jornais como o britânico The Guardian, e revistas como The New Yorker e Vanity Fair, tentam listar todas as séries e programas que seriam referências em Too Many Cooks. E além deles, outros periódicos tentam responder mais especificamente o quê é este vídeo, e porque a Internet parece estar obcecada com ele.


“Lars Von Trier interpreta o papel de ‘Torta’”. Imagem do vídeo “Too Many Cooks”.

Too Many Cooks já tem uma ‘entrada’ no Wikipedia e também no Site IMDb (Internet Movie Database = banco de dados cinematográfico da Internet) já apresentando a nota 9 pela votação dos internautas—que é bem alta no geral das notas dadas no site. Também no IMDb, o TMC já foi incluído na página (uma espécie de curriculum vitae) oficial do cultuado diretor Lars Von Trier, que no vídeo “interpreta” uma “torta”, e parece entender o espírito cômico alternativo e inovador do infomercial do Adult Swim. Ainda, TMC já é alvo de acusações de ser obra plagiada (Variety, ver comentários) de um curta independente realizado em 2004.

Tanto pela sua abobrice, quanto por oferecer—mesmo que talvez acidentalmente—uma crítica sobre produção e consumo cultural áudio-visual, Too Many Cooks teve uma rápida e, pode se dizer, positiva recepção e disseminação. Mas, interessante mesmo é o status de “cult (instantâneo)” da cultura pop internética que o vídeo já ocupa com apenas 2 semanas de existência.

c&p

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