Eleições e Amizades em Tempos de Diálogos Facebookianos

“Mesmo que a inovação tecnológica tenha permitido inúmeros métodos para nos conectarmos uns aos outros, a nossa habilidade para a troca significativa de ideias não evoluiu no mesmo ritmo”, diz Sean Minogue em seu artigo Clean Up The Way You Communicate (“Faça Uma Limpeza Na Forma Pela Qual Você se Comunica”), em Explore Create Repeat. (Imagem: “Teléfono de cordel”. Ilustração pertencente ao livro “El mundo físico: gravedad, gravitación, luz, calor, electricidad, magnetismo, etc.”, de A. Guillemin; Barcelona Montaner y Simón, 1882. Reprodução/Internet; Wikimedia Communs)

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Todo brasileiro quer o melhor para o país. E talvez por isto muita gente tenha levado bem a sério esta última eleição. Porém, surpreendentemente, muita gente acordou para o fato de que “ideologia política” também é um fator bem significativo dentro das relações de amizade.

Amigos são como companheiros em uma jornada, que devem se ajudar a perseverar no rumo a uma vida mais feliz”. (Pitágoras) 

Há muito tempo o homem vem refletindo sobre o conceito da palavra amizade, pois durante a vida de um indivíduo, ela ou ele terá a chance de encontrar muitas pessoas com as quais irá compartilhar momentos e experiências inesquecíveis e enriquecedoras—tanto pelo caráter positivo quanto negativo delas. Durante a vida também se aprende a perder amigos. É também sabido que amigos, repentinamente, desaparecem das nossas vidas sem uma razão específica e sem um conflito sequer.


Desde que foi lançado, o Facebook vem se valendo deste fenômeno natural de afastamento entre as pessoas oferecendo a possibilidade de se reencontrar, ou reconectar com antigos amigos que por uma razão ou outra, saíram de suas vidas. E isso é bom. Porém, o Facebook também ajuda a banalizar a palavra “amizade”, onde pessoas que não se conhecem tão bem são geralmente classificadas como “amigos” juntamente àquela pessoa que se conhece por anos e anos.

Nos livros oito e nove da obra Ética Nicomaquéia, Aristóteles divide amizade em três tipos: amigos para o prazer; amigos para o benefício; e verdadeiros amigos. Ao primeiro pertence aqueles tipos de laços sociais que se estabelecem para alguém desfrutar o seu tempo livre, por exemplo, amigos de esportes ou hobbies, ou de festas. No segundo grupo estão incluídos todos aqueles laços cujo cultivo é motivado principalmente por razões relacionadas com o trabalho ou deveres cívicos, como passar tempo com o colega de trabalho e com vizinhos. Na terceira categoria, encontramos Amizade com o “A” maiúsculo. Os verdadeiros amigos, explica Aristóteles, são espelhos um para o outro”. (Andrea Borghini)

As semelhanças pelo gosto em música, filme, moda, e TV, as semelhanças profissionais e de círculo social, bem como as semelhantes crenças e valores, podem ser os primeiros fatores considerados quando se forma uma relação de amizade. Mas independentemente de como elas foram iniciadas, as amizades podem amadurecer como também podem estancar.

Ninguém mais se surpreende com aquela amizade que não sobrevive a uma traição romântica: o/a amigo/a que rouba a/o namorada/o do/a amigo/a, tende a perder a amizade do/a amigo/a traído/a. Um amigo que não convida um amigo para uma festa, tende a enfraquecer aquela amizade. Reagimos normalmente quando alguém deixa de ser amigo de outro alguém que não pagou um empréstimo, por menor que seja a quantia, ou que quebrou ou não devolveu algo que pegou emprestado. Há várias formas de se estremecer e de terminar uma amizade que já não chocam mais ninguém. E não seria diferente quando lidamos com ideologia política.

Por exemplo, os indivíduos que não querem conviver com uma pessoa racista, ou misógina, ou xenófoba, ou homofóbica, ou fanática religiosa, ou classista, estão apenas exercendo o direito de estabelecer ou desfazer amizades baseados na ideologia política na qual acredita e defende. Queira-se ou não, estamos sempre avaliando ideologicamente uma pessoa desde que a conhecemos. Interessantemente, os critérios rígidos para formar e cultivar uma relação de amizade usados no mundo real, tendem a ser menos usados no mundo online.

Amigos discordam e até brigam de vez em quando. Por isso os conflitos “políticos” entre amigos durante a última eleição não são parte de uma nova anomalia dos nossos tempos. Na verdade esses conflitos têm muito pouco a ver com partidos políticos e vão bem além das figuras de Dilma e Aécio—já que estes só fornecem um rosto a uma ideologia que é mais profunda do que a, em comparação, simples política partidária. Muitos desses conflitos ocorreram entre, digamos, uma ideologia política progressista vs. uma ideologia política conservadora, e só servem para mais uma vez evidenciar que, de um modo geral, as pessoas têm opiniões e visões diferentes em relação à vida e ao mundo.

Entretanto, assim como aqueles amigos que tiveram suas relações de amizade estremecidas, várias outras pessoas fortaleceram essas relações através de um diálogo sobre política, mesmo que—reparem—nem sempre concordando uma com a outra, ainda que online.


Eu não preciso de um amigo que mude quando eu mudo e que acene com a cabeça quando eu aceno; minha sombra faz isso bem melhor”. (Plutarco

Aqueles que conseguiram fortalecer suas amizades durante a eleição em face à discordância ideológica, o fizeram porque usaram elementos básicos da “amizade”: ouvir e respeitar. Esses que saíram com suas amizades intactas ou fortalecidas após as eleições, apesar de discordarem politicamente, foram capazes de conversar, debater, dialogar sobre política da mesma maneira que conversariam sobre qualquer outro assunto, de Beyoncé à legalização do aborto. Esses indivíduos lapidam, e transformam suas habilidades de comunicação acompanhando a evolução tecnológica que hoje nos seduz e nos persegue.

(Imagem: Reprodução/Internet).
Patricia Greenfield, psicóloga do desenvolvimento da Universidade da Califórnia-Los Angeles, observou um declínio no estabelecimento de amizades íntimas entre os jovens, como resultado do uso das redes sociais. Em vez das amizades íntimas, muitos jovens agora obtêm apoio e afirmação pessoal através das 'curtidas' e dos comentários às suas postagens”. (Pauline Dakin

Crianças, hoje em dia dirão, “Põe no Feice!”, logo após tirararem uma foto. O Facebook vem modificando significativamente o conceito e as experiências de amizade. Além da exposição massissa e constante da imagem e da vida pessoal, a rede social favorece uma relação entre amigos que tende a ser unicamente nutrida pelas reações positivas. As curtidas de fotos e o compartilhamento de piadas, vídeos, e de mensagens motivacionais, espirituais e religiosas, faz com que a troca de ideias divergentes fique meio que fora do campo de comentários.

Isto acontece simplesmente porque ninguém quer ou precisa de conflito o tempo inteiro. Mas ao contrário do dia-a-dia normal do Facebook, as eleições tornaram os comentários mais longos, sérios, expressivos, e—pela euforia—até rudes, o quê de certa forma subverteu aquilo que é compreendido pelo senso comum como sendo a proposta única da plataforma social: “curtir”, concordar com tudo.

Porém, o fato é que na real, um “Amigo” não é aquele que curte tudo que o outro amigo faz ou pensa. Amigo também não curte; amigos discordam sobre várias coisas, e o Facebook, curiosamente, não oferece um botão para isso, mesmo quando se é possível ser e pensar diferente sobre inúmeros assuntos dentro de uma relação de amizade.

Então, não foi à toa que o Facebook tenha facilmente se tornado um “local” onde muitos amigos entraram em colisão político ideológica durante as eleições. É certo que muitas pessoas não conseguiriam se entender politicamente ainda que sentadas tomando café uma de frente à outra. Mas entre os diálogos partidos e de inflexão vocal ausente, as frases soltas e sem pontuação, o silêncio ou a falta de resposta, e a ausência do olho-no-olho no Facebook, facilitaram a possibilidade para que amizades saíssem fraturadas.

À pergunta, ‘O que é um amigo?’ Sua resposta foi, ‘Uma única alma habitando dois corpos’”. (Aristóteles) 

As reais amizades clamam pela presença física, ainda que a possibilidade seja remota; elas são poucas porque elas são raras; elas são boas porque são fáceis de lidar; elas sobrevivem décadas e distâncias porque Amigos sempre compartilharão um elemento em comum, às vezes até desconhecido, mas que é forte o suficiente para funcionar como elo de união.

O verdadeiro amigo é aquele que mesmo não votando no mesmo candidato que você vota, vai te dizer no ouvido, durante uma festa, que você está com um pedaço de espinafre preso no dente, e assim te poupar de mais algumas horas de puro mico...


Amizade é uma benção, mas nem toda amizade é para sempre. Assim, no dilema da relação entre amizades e ideologias políticas, é importante se perguntar se vale a pena, se realmente se quer, ou se está preparado para ser Amigo de alguém “irremediavelmente” racista, ou misógino, ou xenófobo, ou homofóbico, ou classista, quando estas expressões ideológicas vão diretamente contra os seus valores—ou simplesmente ferem os seus sentimentos, ou os de alguém ou de um grupo com o qual você se importa.

O amigo verdadeiro é o homem que sabe tudo sobre você e ainda assim gosta de você”. (Elbert Hubbard)

Quem perdeu um amigo nessa eleição, talvez tenha na verdade perdido uma relação que seria facilmente danificada por outro motivo, menos ou mais sério. É claro que algumas pessoas não mudam, mas… antes de deletar ou bloquear um amigo de sua vida, faça uma busca em sua memória e tente relembrar como aquele amigo se tornou “Amigo”—o resultado desta pesquisa pode ser mais valioso do que uma curtida e mais surpreendente do que o resultado de qualquer eleição presidencial.

Não podemos parar de nos comunicar; mas precisamos sempre tentar aperfeiçoar a maneira pela qual nos comunicamos.

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Fonte: Glauco Araújo, “Discussão política no Facebook abala relações de internautas com amigos”, em G1 Globo; Pauline Dakin, “Social media affecting teens' concepts of friendship, intimacy”, em CBS News Health; Andrea Borghini, “Best Friendship Quotes”, em About.com.

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