Helen Kane: A Verdadeira Betty Boop

Foto da cantora Helen Kane. (Imagem: Reprodução/Internet, Listal.com).

Desde sua criação no início dos anos 1930, a personagem Betty Boop é uma daquelas personagens que de tempo em tempo retorna à cena pop, ainda como uma espécie de símbolo sexual. Mas de onde veio a inspiração para esta figura tão popular?

Após a Primeira Guerra Mundial o papel da mulher na sociedade mudou radicalmente. Nos Estados Unidos este fato ficou mais explícito com a entrada da mulher no mercado de trabalho, e consequentemente lhe abriu outras oportunidades sociais. As roupas e o visual das mulheres mudaram. Seus cabelos podiam ser bem mais curtos. Elas bebiam, fumavam e dançavam o swing. E é claro, tudo isto foi traduzido nas produções culturais, e as novas ícones das artes, do cinema e da música popularizaram o novo estilo feminino.

E foi dentro deste contexto que surgiu Helen Kane. Helen Clare Schroeder, seu nome verdadeiro, nasceu no bairro novaiorquino The Bronx em agosto de 1904, e faleceu em setembro de 1966 em Queens, outro bairro da cidade de Nova York.

Helen foi uma cantora bastante popular na década de 1920 através de suas apresentações nos shows de variedade chamados de vaudevilleEla também se popularizou através de aparições nos primeiros filmes falados.



Acima, Helen Kane como a pistoleira Nan McGrew no filme Dangerous Nan McGrew (“A Perigosa Nan McGrew”) de 1930’.

Sua canção mais conhecida foi I Wanna Be Loved By You (“Eu Quero Ser Amada Por Você”) que ela cantou pela primeira vez em 1928 no musical Good Boy, do famoso produtor e compositor Oscar Hammerstein. A personagem Betty Boop também cantou a música em um dos seus desenhos.

Escute abaixo I Wanna Be Loved By You na voz de Helen Kane (1928)


Mas, além de ter sido gravada por vários artistas, incluindo Sinead O'Connor, a canção I Wanna Be Loved By You também se tornou parte de uma das mais famosas cenas de Marilyn Monroe no clássico filme “Quanto Mais Quente Melhor” (1959) (Some Like It Hot, título original) do celebrado diretor Billy Wilder, filme considerado uma das melhores comédias de todos os tempos (também estrelada por Tony Curtis e Jack Lemmon).

Aqui vai um trecho de I Wanna Be Loved by You, música de Herbert Stothart e Harry Ruby, e letras de Bert Kalmar, escrita para o musical Good Boy de 1928. (É bom notar que na língua inglesa, duas vogais “o’s” fazem o som de “u”, e duas vogais “e’s” fazem o som da vogal “i”, assim ‘doo’ soa como ‘du’ e ‘bee’ soa como ‘bi’ em português.)

I wanna be loved by you / Eu quero ser amada por você
just you and nobody else but you / só você e por mais ninguém, só por você
I wanna be loved by you - alone. / Eu quero ser amada por você – à sós.
Boo boo bee doo/ Boo boo bee doo

I wanna be kissed by you / Eu quero ser beijada por você
just you and nobody else but you / só você e por mais ninguém, só por você
I wanna be kissed by you - alone. / Eu quero ser beijada por você – à sós.
Boo boo bee doo

I couldn't aspire / Eu não poderia ambicionar
to anything higher / por nada maior
and to feel the desire / e sentir o desejo
to make you my own. / de fazer que você seja meu.
Badum badum bee doodily dum! Boo!

Ao se tornar uma sensação musical, surgiram as bonecas Helen Kane e os concursos “das mais parecidas com Helen Kane”. A cantora participou de programas de rádio e em boates e sua legião de seguidores alcançou o seu pico em 1928 e 1929.

Helen Kane e a boneca Hele Kane. (Imagem: Reprodução/Internet)

É tido como fato que o animador Grim Natwick, dos Estúdios Fleisher do produtor Max Fleischer, viu em Helen Kane um modelo para a criação mais famosa do estúdio: Betty Boop. No entanto, alguns acham que a atriz Clara Bow também foi uma influência para a criação de Betty Boop. Assim, pode se dizer que as duas influenciram a criação da famosa melindrosa eternizada com o nome de Betty Boop: a sapequice de Helen e a sensualidade de Clara, talvez.

Helen Kane, Betty Boop e Clara Bow.
(Imagem: Reprodução/Internet)

Bem, tudo começou em 1930 quando o animador dos Estúdios Fleischer, Grim Natwick, lançou uma caricatura de Helen Kane no desenho animado Dizzy Dishes (“Pratos Tontos”, em uma tradução literal). Neste primeiro desenho animado, Betty é representada como uma mulher antropomórfica, ou seja, uma mistura de mulher com um poodle francês, apresentando as orelhas caídas de cachorro. Porém, o elemento mais conhecido além da sensualidade ainda é a sua pequena voz de canto bem chiada assemelhando-se à voz de uma criancinha.

Abaixo, a participação de Betty Boop no desenho animado Dizzy Dishes de 1930:


Mais tarde, com o sucesso de sua primeira aparição (que tinha a intenção de ser única e rápida), o personagem foi apelidado de “Betty”, e rapidamente se tornou popular, ganhando o seu próprio desenho animado.

Em 1932, a personagem foi finalmente batizada com o hoje famoso nome de Betty Boop e foi radicalmente transformada em humana, momento no qual suas longas orelhas de cachorro tornaram-se orelhinhas com brincos argola.

Um fato bem interessante, e bem chocante para os dias de hoje, é a idade desta personagem altamente sexualizada: Ela tinha entre 13 a 16 anos de idade nos desenhos animados originais, 1932-1934 (Betty Boop Wikia).

Uma longa briga na justiça é um outro fator que mais relaciona a imagem de Helen à imagem de Betty Boop.

Em 1934, Helen Kane entrou com uma ação na justiça contra a Paramount e Max Fleischer alegando competição injusta e apropriação inadequada contidas no desenhos animados da Betty Boop. O julgamento foi iniciado naquele mesmo ano com os filmes de Helen Kane e de Betty Boop sendo exibidos somente para o juiz, não incluindo o júri. Atrizes que gravaram a voz de Betty Boop nos desenhos, como as artistas Ann Rotshchild, conhecida como Little Ann Little, Margie Hines (que também fazia a voz de Olívia Palito do desenho Popeye), Kate Wright, Bonnie Poe, e mais notavelmente Mae Questel, que fez a voz de Betty Boop por mais tempo, foram todas intimadas a testemunhar.

As atrizes que fizeram a voz de Betty Boop nos anos 1930, Bonnie Poe, Mae Questel (também fez a voz de Betty em 1988), Little Ann Little, Kate Wright, Margie Hines, e a injustiçada Helen Kane, a Betty Boop original.
(Imagem: Reprodução/Internet)

Little Ann Little disse no tribunal como o Boop oop a doop havia sido criado a partir de ba-da inde-do, que se desenvolveu em bo do-de-o-do e finalmente chegou ao Boop Oop a Doop. Os estenógrafos do tribunal fizeram cara feia enquanto Ann Little dava o seu depoimento. Little Ann Little, durante todo o julgamento falou com a voz da Betty Boop levando Helen Kane a lhe perguntar ironicamente, “Oh, você fala desta maneira quando está em casa?”, e assim o tribunal ouviu Little Ann responder, “Sim, de fato eu falo assim mesmo-doo doo!”, o quê era verdade; Little Ann Little falava mesmo daquela maneira.

O caso se arrastou no tribunal por mais de dois anos até que a pouco conhecida cantora negra “Baby Esther”, foi intimada pela defesa para testemunhar que usava os boops antes de Helen Kanes. Max Fleischer encontrou um filme antigo de uma apresentação de Baby Esther fazendo uso da frase Boop Oopy Doop. Alguns acharam que o filme havia sido forjado; mas não foi. Assim, o juiz decidiu que o testemunho de Helen Kane não conseguiu provar que seu estilo de canto era único e que este havia sido imitado.

Foto da cantora Baby Esther.
Baby Esther era o nome artístico de Esther Jones, uma popular artista de cabaré na famosa casa noturna negra Cotton Club no Harlem (New York) no final da década de 1920. Baby Esther inseriu palavras como Boo-Boo-Boo & Doo-Doo-Doo em canções. Helen Kane assistiu uma apresentação de Baby Esther em 1928 e usou as interferências vocais de bebê, ou de babyem seu maior sucesso I Wanna Be Loved By You” no mesmo ano. Um filme de teste de som foi descoberto no qual Baby Esther canta usando seu estilo, refutando as alegações de Helen Kane na justiça. O agente de Baby Esther também testemunhou que Helen Kane assistiu Baby Esther em seu número de cabaré em 1928. A decisão do juiz Edward J. McGoldrick da suprema corte foi: ‘A autora da ação não conseguiu sustentar a causa de pedir por prova de força probatória suficiente’. Em sua opinião, o técnica “bebê” de cantar não foi criada por Helen Kane.” (Wikia)
(Imagem: Reprodução/Internet)

Com as dificuldades oriundas da Grande Depressão, o mundo extravagante das flappers (conhecida como melindrosas no Brasil) havia acabado, e assim o estilo Helen Kane começou a ficar ultrapassado. Após 1931, Kane já não contava com o apoio de cineastas que naquele momento escolhiam outras cantoras.

Debbie Reynolds e Helen Kane nos anos 1950. (Imagem: Reprodução/Internet)
Helen Kane fez várias aparições em programas de TV nos anos 50. Em 1950, ela cantou sua música mais conhecida I Wanna Be Loved By You e a mesma foi dublada por Debbie Reynolds no filme musical Three Little Words (1950), no entanto o nome de Helen não aparece nos créditos. E em 1954, a MGM lançou um disco com as últimas canções gravadas pela artista com o título The Boop-Boop-A-Doop Girl! (“A Garota Boop-Boop-A-Doop”).

Mesmo que o caso não tenha sido resolvido no tribunal, principalmente pela autenticidade dos Boop Doo’s e da voz de neném, fica claro que o estilo maroto e sapeca de Helen Kane foi fundamental para a criação da eterna Betty Boop.

Desenho de Grim Natwick da figura ainda-sem-nome-fixo como a personagem Nan McGrew, que na verdade foi uma personagem que Helen Kane interpretou no cinema.
(Imagem: Reprodução/Internet)

E por mais que tenham negado, os criadores de Betty Boop realmente foram inspirados por Helen, já que um ano após o filme The Dangerous Nan Mcgrew, Betty Boop (que naquela época ainda não era chamada de Betty Boop), aparece no desenho animado The Bum Bandit de 1931, portando um revólver e com o nome de Nan Mcgrew—qualquer semelhança não teria sido uma mera coincidência.

Ao que tudo indica, Helen Kane foi injustiçada no tribunal. Mesmo assim, hoje em dia ela é devidamente considerada como a inspiração para a criação de Betty Boop.

5 comentários:

  1. ótimo texto e pesquisa impecável! parabens

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  2. That makes perfect sense.

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  3. Sou fascinada pelo desenho dá Betty Boop, adorei o texto e a delicadeza e riqueza dos detalhes em esclarecer os fatos. Obrigada!

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