No aniversário da Língua Portuguesa, quem comemora?


Testamento de D. Afonso II. 27-06-1214. Portugal, Torre do Tombo, Mitra Arquiepiscopal de Braga, mç. 1, n.º 48 (Imagem: Reprodução/Internet, Arquivo Nacional Torre do Tombo)

A Língua Portuguesa completou 800 anos neste mês de junho. Dia 27 de junho, mais precisamente, pois foi em 27 de junho de 1214 que D. Afonso II, terceiro rei de Portugal, redigiu seu testamento. Este é considerado o primeiro documento escrito em português, muito embora bem poucas palavras daquele texto de 1214 seriam hoje identificadas como o português que conhecemos.

Como informa o site Euronews, “Este testamento é até agora o primeiro documento oficial da corte chegado aos nossos dias, mas não será o mais antigo documento escrito em língua portuguesa descoberto até agora. De um período situado entre 1211 e 1216 é conhecida uma Notícia de Torto – ‘Notícia das malfeitorias de que foi injustamente vítima Lourenço Fernandes da Cunha’ e, mais antiga ainda, uma Notícia de Fiadores, datada de 1175.”

(Leia a transcrição do testamento de D. Afonso II clicando aqui.)

A história da língua é bem resumida por Nuno Pacheco em seu artigo “A velhíssima mãe e os seus diferentes filhos”, publicado no dia 27 de junho deste ano no portal Público. Ele diz que seria impossível falar do futuro da língua portuguesa sem relembrar brevemente o seu passado:

“O tempo do galego-português (ou galaico-português, se preferirem), nascido do latim no ângulo noroeste da Península Ibérica, depois da presença romana iniciada em 218 a.C. Outras invasões e conquistas trouxeram outros falares. E se o latim escrito continuava como língua de cultura e transmissão de conhecimento, o português nascido de uma das línguas peninsulares (galego-português, castelhano e catalão; os bascos não haviam abraçado o latim e assim se mantiveram) viu o seu vocabulário, latino e grego na origem, enriquecer-se com palavras de origem germânica (menos) ou árabe (mais). O Testamento de D. Afonso II, que está na origem da mais recente euforia celebrativa, está datado de 27 de Junho de 1214 (faz agora exactamente 800 anos) e é, a nível oficial, o mais antigo documento escrito em língua portuguesa de que há registo. Mas o português não parou por aí, e às influências da proximidade com o castelhano (que chegou a ser usado como segundo língua falada e escrita, inclusive por Gil Vicente e Camões) veio depois a ser influenciado, a partir do século XVIII, pela língua francesa. Gramática, Ortografia e Lexicografia iam-se desenvolvendo desde o século XVI. E iam surgindo os dicionários e vocabulários, com realce para os de Bluteau e de Morais e Silva (ambos escritos e publicados já no séc. XVIII)”.

O bem interessante texto de Nuno Pacheco tenta traçar o descuido de Portugal com a língua portuguesa em suas ex-colônias, e principalmente ao português falado no dia-a-dia. Ele diz,

“A velhíssima mãe-língua, ela própria com ainda mais antigos progenitores e parentes, via os filhos crescer, sem contudo prestar atenção suficiente às suas necessidades e diferenças. África, neste campo, também por via da colonização, viu-se a braços com o português como língua oficial (de ensino, de administração) mas não de uso. Porque nesse papel estavam as línguas maternas, não as do colonizador”.

Nuno critica à forma pela qual se destaca a defesa da língua através da visão de “idioma oficial” que pouco se importou com a continuidade da língua nas ex-colônias depois de suas independências de Portugal. Muito embora seu texto se direcione a Portugal, indicando que no Brasil a língua tomou “forma distinta”, e que hoje o português como língua de negócios vê-se substituído pela língua inglesa, sua crítica sobre a ênfase ao português “oficial” e a pouca atenção à língua falada, também se encaixa ao Brasil.

No Brasil, o português oficial serve como fator de distinção de classes, dividindo a população em cultos e incultos e tornando injusta a competição por mobilidade social. (Podemos dizer que o português oficial é, basicamente, o português de concurso público, língua da administração pública, e dos textos acadêmicos.) Desta forma, e não coincidentemente, muito pouca atenção é dada à educação, fazendo com que grande parte da população não consiga aprender o português “correto”, “oficial”, “culto”. Muito pouca atenção e mérito são dados à nossa língua falada, a língua realmente usada no dia-a-dia que é, na realidade, a verdadeira língua brasileira.

E mesmo que o português culto seja super valorizado e desejado, vemos que várias palavras da língua inglesa vem se tornando muito comuns no Brasil, sendo inclusive muito usadas por inúmeros jornalistas e por jovens da classe média computadorizada.

Umas palavrinhas em inglês aqui e ali em um texto em português, indicaria um padrão social elevado? Claro que não, mas certamente esta técnica vem funcionando muito bem como um fator de distinção social. Línguas continuam vivas pelo dinamismo, pela capacidade de criação de novas palavras e, pela assimilação de novas palavras estrangeiras. No entanto, o uso desnecessário de palavras estrangeiras claramente pode limitar um texto a um círculo específico de leitores, e isto é problemático somente se a intenção for a de disseminar um texto a um grande número de pessoas. Mas o uso exagerado (e muitas vezes errado) de palavras em inglês em textos em português deveria ser considerado somente como uma pagação de mico, hoje generalizada.

Contudo, interessante é o fato de que o uso de palavras inglesas, mesmo quando existem equivalentes em português, é bem melhor visto e aceito do que o uso de palavras, gírias, e de expressões usadas pelas classes mais “pobres” brasileiras, parecendo indicar que a língua do pobre, sim, pode representar uma real desvalorização da língua oficial-culta-nacional.

A exagerada valorização do uso de palavras da língua inglesa é tão grande que, talvez por isso, não tenha havido muito estardalhaço na mídia brasileira sobre a data de 27 de junho, data do nascimento oficial da língua portuguesa. A data foi bem comemorada em Portugal e, nada estranhamente, não muito citada, falada, ou mencionada no Brasil.

Aparentemente, o Brasil se afasta da herança de D. Afonso II e por tabela se afasta dos outros herdeiros linguísticos de Portugal, como os nossos irmãos na África, onde uma negação da língua colonial seria altamente compreensível. Então, a língua portuguesa criada em 1214 parece não mais ser tão interessante—e muito menos fascinante—ao Brazil, hoje diferenciado.

De qualquer forma, e nas muitas formas do meu português ruim, ainda é tempo de desejar um feliz aniversário ‘oficial’ para a Língua Portuguesa! Não podemos esquecer que sem ela não haveriam os vários e vários erros—e armadilhas—gramaticais e ortográficos que todos nós brasileiros, sem muitas exceções, cometemos diariamente.

c&p

Fonte: Arquivo Nacional Torre do Tombo, Nuno Pacheco, “A velhíssima mãe e os seus diferentes filhos”, Portal Público.

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