Dilma, No Futebol da Copa Não Tem Coxinhas, Só Tem Coxões...

No futebol da Copa não há coxinha, só existem coxões.
(Imagem: Reprodução/Internet).

Futebol, como todo esporte, é uma luta corporal. Com isso, já era sabido que Dilma seria hostilizada durante a cerimônia de abertura. Ela sabia. Todos sabiam. Mesmo assim ela decidiu abrir a Copa do Mundo. E lá, em uma “arena” os leões tentaram devorá-la entoando palavras que nem mesmo algumas canções do funk carioca ousam entoar. Ela estava lá defendendo o #vai ter copa. Basicamente sozinha.

Florestan Fernandes Jr. perguntou “Onde estavam os covardes?”, “onde estavam ontem os políticos que festejaram a escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014?”. Ele continua,

“Onde estavam: Lula, Sérgio Cabral, Eduardo Campos, Aécio Neves, José Serra, Jaques Wagner, Yeda Crusius, Cid Gomes, Carlos Eduardo de Sousa Braga, Wilma de Faria, Roberto Requião, José Roberto Arruda, Blairo Maggi? Onde estava Marina Silva que queria uma sede no Estado dela, o Acre? Onde estavam os prefeitos, senadores, deputados, ancoras de televisão e rádio que queriam tanto a Copa do Mundo? Onde estavam os prefeitos e governadores responsáveis pelas obras exigidas pela Fifa? Ontem, coube a uma única mulher receber toda a agressão de uma torcida rica e privilegiada que conseguiu ingressos para o jogo de abertura em São Paulo. Uma elite raivosa que não perde a chance de destilar seu ódio de classe, seus preconceitos e sua falta de educação. Parabéns, presidenta Dilma, você não se escondeu nos palácios da República como fizeram os governadores, inclusive o senhor Geraldo Alckmin”.

A pergunta fica parada no ar enquanto os políticos se escondem. Menos Dilma—queira ou não.

Após apoiar governadores a reprimir manifestantes e assim defender os interesses da elite brasileira durante as manifestações populares, Dilma é apunhalada pela frente—sem a surpresa de Júlio César. Mas lá estava ela, esperando o punhal. E de novo vale a pena perguntar: Onde estavam os homens da política brasileira que defenderam e gastaram tanto com a Copa 2014?

Tudo indica que as vaias partiram da área VIP—termo que traduzido do inglês, ironicamente, significa Pessoas Muito Importantes (e não Pessoas Muito Educadas, como muitos possam pensar)—e se espalhou para outras áreas do estádio. Como diz o site 247, as “vaias ocorreram antes e após o Hino Nacional; xingamentos foram ouvidos quando a presidente foi mostrada no telão na comemoração do segundo gol da Seleção Brasileira; houve também xingamentos contra a Fifa”.

Ah, xingaram a FIFA também… Que legal…

Desde o ano passado o povo vêm saindo às ruas reivindicando melhoria para o país e, sim, questionar os “padrões FIFA”, e levam porrada do governo. Desde o ano passado categorias profissionais em vários estados estão reivindicando melhorias de suas condições de trabalho, e ao sair às ruas levam porrada dos governos. Mas a elite presente na abertura da Copa ontem optou por uma forma mais despojada e irreverente de se fazer protesto. Aquelas Pessoas Muito Importantes escolheram vaiar a Presidente em frente às câmeras da imprensa internacional, antes e depois do hino nacional e mandando-a “tomar no cu”, enquanto os verdadeiros manifestantes brasileiros estavam do lado de fora do estádio, sim, sendo realmente porrados pelo governo.

Patriotismo e hino nacional à parte, essa manifestação pedigree e classe A mostra que a prática de manifestação política da elite branca nacional é bobinha, ao nível infantil da palavra, mesmo quando defende interesses corporativos funestos. O ato de protesto se assemelhou ao ato de um adolescente que aprendeu a falar palavrão na escola com os amigos enquanto fumam um cigarro escondido achando que aquilo é sinônimo de total transgressão. O ato dos famosos e muito importantes se igualou em qualidade à cerimônia de abertura, onde aquele showzinho de merda (que custou R$ 18 milhões ao Comitê Olímpico Local) se igualou, em concepção, a uma apresentação de alunos de jardim de infância para comemorar, talvez, o “Dia Nacional do Absurdo”.

Mas e as Consequências? Quais seriam, caso houvessem consequências aos lindos, loiros e endinheirados? Claramente pode haver uma consequência política. No Blog do Tarso lê-se,

“A ESPN disse que o público que xingou Dilma é um público diferente, que paga ingresso caro ou é convidado, e que foi uma grosseria, uma má-educação, lamentável, deplorável e deprimente. O respeitado jornalista Juca Kfouri disse que a torcida foi mal-educada, que é a torcida da ‘elite branca’ e algo não cidadão e não democrático, e que essa torcida nunca vaiou o Paulo Maluf. Juca informou que conversou com os voluntários e funcionários do estádio e que 95% deles não gostaram dos xingamentos à presidenta (…) informou que os trabalhadores presentes na Arena Corinthians disseram que não gostaram das ofensas contra Dilma vindas dos endinheirados”.

O ato do bonde VIP e do camarote do Itaú parece ter dado início a campanha presidencial de Aécio Neves. E é assim, como em todas as eleições, que nos confrontamos com dúvidas na opção de um bom candidato à presidência, deixando de lado as emoções.

Não se pode dizer ainda se este ato da gente fina brasileira terá uma repercussão positiva para a presidente perante as classes mais baixas. No entanto, seria possível prever que a “nova” classe média, que muito se beneficiou do governo do PT, se aliará a plateia do setor VIP. Isto pelo simples fato de que as mentes de quem agora, além de andar de avião, pode dirigir até a padaria da esquina para comprar o pão, progressivamente alisar as madeixas e pintá-las de louro com intencionais raízes pretas, queimar uns Freeboi na nova churrasqueira, e se refrescar no verão num buraco azulejado cheio d’água cavado no quintal, já se sente não somente parte do setor VIP, mas também vive a ilusão de que serão bem vindas ao Copacabana Palace para tomar um chá com o Luciano Huck e que poderão chamar Angélica de comadre.

A presidente Dilma Rousseff foi vaiada durante o jogo do Brasil
(Foto: 
Reprodução/Internet, JF Diorio/Estadão Conteúdo, Diário do Litoral)
As classes mais baixas que também foram beneficiadas pelo governo federal do PT, talvez, consigam enxergar que Dilma teve culhões em mostrar a cara e que, claramente, quando mandaram Dilma “tomar no cu” os VIPs estavam também se referindo aos mais pobre dos brasileiros. O mais importante e surpreendente é que a presidente também teve culhões, teve peito para comentar o incidente:

“Na minha vida, enfrentei situações que chegaram ao limite físico. Durante a ditadura militar eu suportei não foram agressões verbais, foram agressões físicas. Suportei agressões físicas que são quase insuportáveis. E nada me tirou do meu rumo, nada me tirou dos meus compromissos nem do caminho que tracei para mim mesma. Não serão xingamentos que vão me intimidar e atemorizar. Eu não vou me abater por isso”.

Enquanto a manifestação da elite brasileira devora as mentes dos analistas políticos, as manifestações que ocorreram fora do estádio não são sequer noticiadas fora das mídias independentes, mas ocupam as manchetes dos grandes jornais internacionais. Que Dilma tenha aprendido uma lição que todo fã de jogadores de futebol bem sabe: no futebol não há coxinha, só existem coxões. Metaforicamente, esta é uma verdade particularmente maior durante Copas do Mundo.

E assim, abriu-se a Copa da FIFA no Brasil bem como inicia-se as eleições presidenciais de 2014. E, apesar de todas as críticas que possam ser feitas merecidamente em relação a presidente Dilma, ficou claro que a Presidente é uma mulher e uma política de peito.

c&p

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