Félix, Niko, E Um Beijo Na Alma do Brasil

Ninguém deveria ficar preocupado ou indignado com o último capítulo da novela Amor à Vida. Este beijo faz bem ao Brasil.

A novela do horário nobre da Globo (8, ou 9 da noite), “Amor à Vida”, de Walcyr Carrasco, fez jus ao seu título em seu último episódio exibido ontem, 31 de janeiro de 2013. Friso bem a data porque esta entrou para a história da televisão brasileira como dia da exibição do primeiro beijo entre dois homens em uma telenovela.

Eu particularmente não assisti ao mega drama da 8 (ou 9), pois não mais assisto novela, nem essa, nem nehuma, mas lembro de ter passado os olhos em muitas críticas negativas na internet sobre a trama. Ao mesmo tempo, lembro também de ter lido muitas das referências ao personagem, Félix, o “gay da novela”—como ouvia as pessoas se referirem ao personagem. No Facebook, por exemplo, vários quadrinhos postados e repostados por meus Face-amigos (com cometários KKKK), contendo o rosto do personagem soltando algumas frases astutas e sarcásticas sobre vários assuntos, foram minhas únicas referências tanto à novela quanto ao personagem. 


Mas passando os olhos pela tela de TV, uma vez ou outra, quando trocando de canal, era clara a representação social deste personagem gay: exageradamente afeminado—exatamente uma das várias questões negativas levantadas sobre a novela. Ou seja, a mesma representação do homem homosexual típica da televisão brasileira, que se torna na maioria das vezes, o fator cômico da trama, consequentemente aumentando a audiência. Mas no final, como um passe de mágica, ele se tornou o mais diferente de todos os outros. 

Interessantemente, com a televisão americana avançando na reflexão e investimento nas várias temáticas LGBT de forma revolucionária, e como o Brasil “imita” descaradamente tudo que é produzido nos EUA (hoje nos damos ao luxo de não traduzir os títulos das séries americanas), e tendo a Globo sido fundada sob a tutela da televisão americana, cabe a pergunta: Por quê só existe uma representação do que é ser gay na televisão brasileira? 

A resposta poderia levar em consideração a “cultura brasileira”, que é produzida por forças maiores e mais altas e que usa um dispositivo de filtragem para estipular aquilo que “é” e aquilo que “não é” permitido a ser incorporado ao dia-a-dia dos brasileiros. Por exemplo, “Black Friday” e “Halloween” podem ser incorporados; ator ou atriz negra em papel de protagonista em telenovela, já é algo muito mais complicado; personagens gays, somente as caricaturas seriam permitidas. 

Sim, a mesma pergunta sobre a representação do homem gay (e da comunidade LGBT em geral) pode ser comparada a representação do negro como uma maneira de se refletir sobre a pergunta elaborada anteriormente se levando em conta a cultura brasileira. Ou seja, a cultura e a sociedade brasileira, por mais que tente se mostrar progressiva, ainda pode ser pensada enquanto extremamente repressiva e preconceituosa. Não somente em relação aos homosexuais, mas em relação ao “novo” de um modo geral.


Nesse sentido, nosso baixo investimento em produção científica e tecnológica, e o estado precário e a ausência dos serviços básicos, por examplo, correm paralelos à representação do “gay” que se dá majoritariamente através dos esteriótipos, e também paralelo à ausência dos negros na televisão e outros setores sociais. Ou seja, esta representação sempre renovada de geração em geração, somente reforça a aversão de um número de pessoas a um determinado grupo, onde o discurso místico que cria e reforça a prática do preconceito e com ele a exclusão social, tem um profundo impacto negativo no desenvolvimento econômico do país--ou seja, exclusão social em termos de desenvolvimento econômico, significa o não investimento em Capital Humano e, decorrentemente, o não uso deste capital e perda em crescimento. Por isto este beijo chega com anos de atraso.

No Brasil, este beijo está tão atrasado quanto está atrasada a abertura de uma empresa telefônica de qualidade razoável e preço justo neste país, ou mesmo quanto a implementação de um sitema de transporte público seguro (já pensou?), ou a criação de linhas de trens de passageiros ligando várias cidades e estados… Nossa.

De uma forma simbólica o atraso deste beijo representa o nosso atraso enquanto nação.

Mesmo considerando o atraso do beijo, e a baixa qualidade da trama, a novela já havia deixado uma marca importante dentro da temática LGBT: gays adotando crianças. Por isso o movimento conservador, um dos grandes críticos da novela (não pela qualidade da produção, mas pelos temas abordados), já visava a novela em seus discursos práticos de envolvimento do diabo e o inferno em questões sociais, inclusive lançando-se mão de um boycote à novela para que o beijo não fosse ao ar. Não adiantou, pois o beijo saiu. 

No entanto, o discurso “o diabo vai te pegar” continua com força nos comentários de qualquer postagem de um texto, ou uma postagem de vídeo sobre o “escandaloso” beijo “sem vergonha”. E olha que apesar da cena ter sido bem comovente (assisti no Youtube um rápido video), o beijo foi mais um selinho prolongado, estilo Hollywood dos anos 40-50, extremamente conservador para as dimensões do país do carnaval.

Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso: Os mensageiros do beijo.


Já imaginou se fosse um daqueles beijos que os casais de personagens heterosexuais da mesma novela dão sem roupa? Os gays convertidos a hetero estariam internados em clínicas cardiológicas—e em coma auto-induzido. 

Talvez a novela não tenha sido tão boa e por isso a emissora e o autor decidiram lançar o beijo ao ar e assim fazer história. Ou talvez, tenha sido mesmo a hora deste maldito beijo sair do armário. Mas seja qual tenha sido a intenção, o fato é que só mesmo o Félix, beijando Niko, fez o que nenhum outro personagem gay da teledramartugia pode fazer, e isso indubitavelmente teve uma relevância muito grande dentro do contexto politico-cultural brasileiro. Ironicamente, esse mesmo personagem quasi-cômico cuidou do assunto mais sério da novela. 

Nunca pensei dizer isto (pois não assisto esta emissora por não gostar da programação), mas é oportuno e apropriado dizer, parabéns Rede Globo, muito embora a cena do selinho tenha sido, ao mesmo tempo, uma das cenas mais conservadoras da televisão.



c&p


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