Recontando Um Passado Embaraçoso: Artistas Recriam Zoológico Humano Na Noruega

Senegaleses em exibição em Oslo, 1914; (Imagem: Reprodução/Internet, This is Africa). O jornal The Independent informa que a ideia da Kongolandsbyen de 1914 foi de um empresário húngaro baseado em Londres de nome Benno Singer, sendo que o evento foi lançado como um “freakshow” (show de aberrações humanas). A ideia explorou o entusiasmo existente em outras partes da Europa pelos zoológicos humanos, os quais exibiam os efeitos civilizadores do colonialismo. Multidões se reuniram para ver uma exibição similar na Bélgica, mesmo quando alguns dos 267 habitantes da Vila Congolesa tenham morrido durante a exibição sendo enterrados em cova simples e sem cerimônias”.

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A instalação artística “European Attraction Limited”, que reencena um zoológico humano na Noruega com 300 voluntários de diferentes raças, mesmo antes de sua estreia este mês foi capaz de criar um intenso debate internacional sobre as formas de se resgatar partes da história do racismo.

Apesar de hoje muitos ativistas e organizações de proteção dos animais considerarem os Zoológicos, parques públicos que exibem uma coleção de animais em sua maioria selvagens, como locais de verdadeiros maus-tratos de animais, hoje pouco ainda se fala e pouco se conhece sobre os famosos Zoológicos Humanos que se popularizaram como forma de entretenimento na Europa e nos Estados Unidos durante a segunda matade do século 19 até os meados do século 20.

E este embaraçoso episódio da história ressurge através de uma instalação artística dos artistas noruegueses Mohamed Ali Fadlabi (de origem sudanesa) e Lars Cuzner (de origem canadense sueca), como parte da comemoração de 200 anos da Constituição Norueguesa. A exibição entitulada “European Attraction Limited” (Atração Europeia Limitada), que com o apoio financeiro do governo norueguês foi inaugurada no dia 15 deste mês no Frogner Park, em Oslo, capital norueguesa, permanecerá aberta até o dia 31 de agosto. A instalação conta com 300 voluntários (de diferentes raças) representando os “congoleses” de um antigo zoológico humano.

A instalação artística é uma recriação, ou melhor, uma reencenação daquela que foi uma das mais concorridas atrações da Feira Universal de Oslo de 1914 que comemorou o Centenário de 100 anos da Constituição norueguesa: o Zoológico Humano chamado, erroneamente, de Kongolandsbyen (Vila Congolesa). A “vila” foi na verdade habitada por 80 senegaleses, entre homens, mulheres e crianças, rodeados por objetos nativos. Eles residiram em “típicas” cabanas de palha e simularam suas rotinas diárias durante o período de 5 meses.

A Kongolandsbyen conseguiu atrair 1.4 milhões de visitantes, mais da metade da população da Noruega, que naquela época era de 2 milhões de habitantes.


Cenas da Kongolandsbyen durante Feira Universal de Oslo de 1914.

Desde o seu anúncio, o projeto de recriação artística do Zoológico Humano vem recebendo severas críticas, inclusive uma petição internacional contra a instalação. Halima Hosh iniciou a petição Stop the Human Zoo of Black People in Norway (Parem o Zoológico Humano de Negros na Noruega) no site Change.org para deter o projeto, que contava até a data de hoje com somente 1.351 assinaturas.

Em 29 de abril deste ano, o portal do jornal inglês The Guardian resumiu algumas dessas críticas: “Algumas organizações antirracismo e comentaristas rotularam o projeto como ofensivo e racista. Existe algum valor artístico na reencenação de tal espetáculo desumanizador, especialmente em um mundo ainda não totalmente curado do racismo? Seria isto um abuso da arte? Ou a reencenação reverterá os modestos ganhos das lutas por igualdade, especialmente quando o mundo engaja na questão racial tão superficialmente?”

Os artistas Lars Cuzner e Mohamed Ali Fadlabi na abertura da exibição em Oslo; (Foto: Reprodução/Internet, The Washington Post- AP Photo/NTB Scanpix, Lise Aserud)

De fato, antes da estreia, os dois artistas relataram ter recebidos ameaças, interessantemente, tanto de organizações antirracistas quanto de organizações neo nazistas. Mas os dois continuaram compromissados com o projeto. Em um artigo sobre a exibição no jornal britânico The Independent, Cuzner diz:

“Queremos oferecer uma oportunidade de corrigir o modo como a Noruega fala sobre o seu passado e de como as pessoas têm sido maltratadas. Cem anos atrás o racismo científico, como nesta exibição, foi usado para retratar os noruegueses como uma raça superior. Agora é a superioridade cultural do nosso presente. Passou-se da superioridade étnica para a superioridade ética”.

Senegaleses em exibição em Oslo, 1914; (Imagem: Reprodução/Internet, This is Africa)

Ainda de acordo com o The Independent, o argumento da ideia do projeto de Fadlabi e de Cuzner se centra no fato de que a Noruega hoje não conhecer esse seu passado não liberal: “Por não sermos noruegueses, naturalmente nós pensávamos que [Kongolandsbyen] fosse do conhecimento de todos. Acontece que quase ninguém na Noruega tinha conhecimento dos zoológicos humanos em outros países”. E este fato se mostra interessante, já que em 1914 mais da metade da população de um país comparece a um “zoológico humano” e cem anos depois não há uma memória coletiva sobre o assunto.

Os artistas ainda argumentam que a Noruega de hoje acredita ser mais tolerante e liberal do quê outros países, relata o jornal The Independent: “Não podíamos perder a oportunidade de desafiar este específico projeto de construção nacional que tem influenciado a autoimagem escandinava da bondade”.

Senegaleses em exibição em Oslo, 1914; (Imagem: Reprodução/Internet, This is Africa)

O fato dos dois artistas terem usado o termo “reencenação” em seu projeto, fez com que muitos pensassem que a instalação seria uma cópia exata da exibição de 1914. E foi pensando assim que Une Berglund Steen, que trabalha com o Norwegian Centre Against Racism (Centro Norueguês Contra o Racismo), descreveu o projeto como “degradante” e que “tornaria as crianças de descendência africana vulneráveis a provocações e tormentos,” como informou o site do National Public Radio-NPR. Contudo, após descobrir que os participantes seriam na verdade um grupo racial misto, Rune Berglund Steen disse que a exibição poderia ser positiva, mas considerando as “intenções vacilantes” dos dois artistas, a “recriação de 2014 não se posicionará como uma resposta a 1914, mas sim como um confuso eco”.

O jornalista Adam Taylor, em um artigo para o jornal The Washington Post, publicado no dia 23 de maio deste ano, argumenta que certamente Cuznor e Fadlabi “iniciaram um debate, não somente sobre o conceito dos ‘zoológicos humanos’ (que também existiram na Bélgica, França e, sim, nos Estados Unidos, entre outras nações), mas um debate mais amplo sobre racismo, colonialismo e história”.

Visitantes na abertura da exibição em 15 de maio de 2014; (Foto: AP, Boston.com)

Reencenações de fatos históricos que poderiam ser rotulados como trágicos, tristes, ou violentos, mas que ao mesmo tempo apresentam uma relevância histórica coletiva, são eventos comuns nos dias de hoje mas que têm uma longa história que pode ser traçada ao antigo Império Romano. “Reencenação histórica”, segundo uma página da Princenton University, é definida como “uma atividade educacional na qual os participantes tentam recriar alguns aspectos de um evento ou período histórico”.

Desde a via crúcis reencenada todo ano em várias partes do mundo durante a páscoa, a reencenação da Guerra Civil Estadunidense, até os vários e diferentes eventos reencenados em museus e castelos, formam hoje uma real indústria financeira baseada na memória, no passado.

Rebecca Schneider em seu livro “Performing Remains: Art and War in Times of Theatrical Reenactment” (Atuando Vestígios: Arte e Guerra em Tempos de Reencenação Teatral), de 2011, ano que marcou o 150o. aniversário da Guerra Civil dos EUA, sugere que

“O problema com a reencenação, parece, é a sua capacidade de atordoar/desconfortar aqueles detentores da fé que acreditam que o presente é fugaz e inteiramente auto-idêntico, ou aqueles que acreditam que a movimentação do presente ao futuro nunca ocorre através do passado, ou aqueles que acreditam firmemente no desaparecimento e perda absoluta do passado bem como da impossibilidade de sua repetição”.

Aqueles que criticam a exibição “European Attraction Limited”, por não se encaixarem na descrição de Rebecca Schneider, ou seja, por acreditarem na inter-relação do passado com o presente e também com o futuro, parecem acreditar no perigo da arte funcionando enquanto propaganda ideológica. Interessantemente, neste caso, a oposição à exibição decorre de duas visões ideológicas totalmente distintas mas que se juntam em uma voz neste caso: uma visão antirracista e uma visão neo nazista.

A primeira teme que sentimentos racistas possam ser resgatados, reforçados ou monumentalizados a partir da exibição; enquanto a visão neo nazista parece temer que seu movimento de resgate da ideologia racista seja abafado pela identificação, conhecimento, pelo registro do passado, e também pela monumentalização das ideias antirracistas.

Mas pensando com cuidado, vemos que quando a história é escrita pelos historiadores ela automaticamente está sendo reconstituída, recontada, relembrada, “reencenada”, pois um determinado e exato momento histórico não pode ser vivido duas vezes, apenas pode ser representado, simulado. Um momento histórico ocorrido 100 anos atrás não poderia ser vivenciado empiricamente através dos sentidos hoje em dia da mesma forma ocorrida em 1914, apenas seu formato espacial pode ser reencenado e experimentado.

E assim surge a pergunta: a história revelada em livros e nos acervos dos museus, ofereceria menor perigo de restauração do racismo do que uma instalação artística que reencena de modo crítico um momento histórico de inferiorização racial? Talvez pelo fato de que tanto o movimento antirracismo quanto o movimento neo nazista façam ameaças aos dois artistas, algo mais profundo esteja em jogo, algo que ainda talvez não possamos ver.

Então, qual seria a forma correta de se resgatar e contar esta história? E mais importante, a quem deve o resgate desta história? Por não terem nascidos na Noruega, conforme o argumento de vários comentários acrescentados na rashitágui #SomeoneTellNorway que agrega e movimenta opiniões contra a exibição, Fadlabi e Cuznor não estariam entitulados ou capacitados a falar de racismo na Noruega?

Portão de entrada em construção da Kongolandsbyen 2014 (esquerda), e portão de entrada da Kongolandsbyen 1914 (direita); (Imagem: Reprodução/Internet, Sowetan Live).

Assim, temos uma terceira visão crítica em relação à exibição, e que se encontra centrada em um sentimento de orgulho nacional que recusa, ou nega, o reconhecimento de um passado e de um presente racista e ressente a opinião e crítica que venham de fora—o que se assemelha a visão dos neo nazistas que, de acordo a uma entrevista de Fadlabi para o site noruguês The Local em abril, ele relata que assim como os antiracistas, os neo nazistas também prometeram queimar a Vila Congolesa, sendo que os neo nazistas argumentaram que a Vila iria “poluir a identidade nacional”.

O artigo da NPR levanta a questão deste presente problemático da Noruega:

“Não que alguém pudesse sugerir que a Noruega esteja livre da intolerância. Você não tem que olhar muito além do massacre de 2011 cometido pelo extremista de direita Anders Breivik para ver isto. Em março passado, a polícia teve que intervir quando um dos sobreviventes daquele ataque, um cantor chamado Mo, se tornou alvo de intimidações online durante as competições do Eurovision. E na semana passada na ONU, a Arábia Saudita disparou contra o histórico de direitos humanos da Noruega, dizendo que o país não faz o suficiente para proteger suas minorias religiosas”.

(Leia também o artigo de Ricardo Santos Pinto, “A Noruega não é um exemplo de tolerância, de democracia e de respeito pelos direitos humanos”.)

O jornalista Adam Taylor do Washington Post, por email, perguntou aos artistas: “Ao se focar em algo que aconteceu 100 anos atrás, ignora-se os efeitos que o colonialismo e o racismo ainda exercem no mundo de hoje?” E eles responderam: “Saber mais sobre a história não sugere que se ignore o mundo que a gente vive hoje. Não estamos tentando mudar a história ou criar culpa em torno da história; estamos tentando fazer conexões entre um passado esquecido e uma realidade contemporânea ignorada”.

Ainda, o artigo do jornal The Independent também relata:

“Esta não é a primeira vez que a reputação de tolerância da Noruega é questionada. Em novembro último, Warsan Ismail, uma estudante norueguesa de origem somali, começou a twitar exemplos de racismo que ela sofreu usando a rashitágui #norskrasisme (racismo na Noruega). A rashitágui logo se tornou destaque, e os que usaram a rashitágui disseram que a Noruega tem um vivo interesse em se auto-retratar ‘pós-racista’ ou ‘acima do racismo’, o que leva à recusa de se discutir discriminação”.

Portão de entrada da Kongolandsbyen 2014, com duas bandeiras da Noruega e duas bandeiras da Bélgica; (Imagem: Reprodução/ European Attraction Limited, Facebook).

Entretanto, a polêmica não para na Noruega, já que os artistas também colocaram duas bandeiras belgas na entrada da Vila Congolesa 2014 simbolizando o fato de que a mesma Vila Congolesa também foi instalada na Bélgica no início do século 20. O embaixador belgo na Noruega, de acordo com site RT exigiu a retirada das bandeiras belgas. Fadlabi e Cuzner se recusaram a remover as bandeiras dizendo que o fariam se fossem “forçados” a fazê-lo pela polícia ou pelo ministério de relações exteriores. (A reação da diplomacia belga é compreensível, pois imagina se a Bélgica for obrigada a se envergonhar perante ao mundo, mais uma vez, pelas atrocidades cometidas no Congo.)

Uma coisa é certa, se o objetivo de Mohamed Ali Fadlabi e Lars Cuzner era de iniciar uma discussão, um debate sobre o passado não tão bonito e bondoso da Noruega, esta missão foi cumprida, já que estes se inciaram antes mesmo da exibição estrear. Contudo, o objetivo dos artistas de despertar a consciência norueguesa quanto a sua atual autoimagem escandinava de bondade e superioridade étnica/ética, ainda levará tempo para saber.

E é assim que uma antiga pergunta reemerge, “para que serve arte?”



c&p


4 comentários:

  1. Bando de patetas noruegueses!!! Fuderam o país deles com essa política de débil mental globalista!!! Agora, vivem sendo roubados, estrupados e assaltados por bostas da África, Ásia, oriente médio e américa latrina!! Bem feito, cambada de otários!!!

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    1. Oi Anônimo,

      11 pontos de exclamação (!).

      Obrigado por seu comentário. No entanto, teria sido bem legal para nós se você tivessido sido mais específico sobre a sua indignação com a política econômica/externa (?) da Noruega e, principalmente, se você tivesse traçado a relação desta política com pelo menos um do temas principais abordados pela postagem.

      Porém, que bom por termos podido ajudá-lo a extravasar o seu profundo descontentamento com a Noruega, com a Ásia, com a África, e com a América Latina. Valeu!

      (Aqui vai um link para um artigo muito legal--e curto--sobre o uso do ponto de exclamação: http://bit.ly/1nHPU5r)

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  2. Nao acho que deva chamar de zoológico onde pessoas estavam mostrando seus costumes e sem grades, foi o que vi no vídeo antigo.. aqui na ragião de campinas-sp costuma ter festa das nações onde cada um monta sua barraca e vende comidas tipicas do seu país, se eu quiser ver isso como um zoo eu vejo, eles trabalham ali das 10 às 00. Acho que o preconceito nem sempre existe, na maioria das vezes esta nos olhos de quem vê!

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    1. Oi Anônimo.

      Acredito que a denominação de “zoológico” começou a ser usada por causa do tom de “exibição” (de espécies humanas diferentes) embutidos naqueles eventos, e pelo fato de que naquele período estar vigor as mais radicais teorias raciais/racistas. Entendemos o quê você quiz dizer com a Festa em Campinas. Porém, é um pouco complicado comparar a “festa das nações” que ocorre hoje em dia em Campinas com aquelas exibições realizadas na virada do século 20 onde seres humanos que nunca haviam sido vistos “pessoalmente” (além de cartões postais) pelos Europeus eram exibidos em eventos chamados por seus organizadores como “Show de Aberrações Humanas”, ou seja fora dos padrões da civilização ocidental—ao contrário de um evento denominado de “Festa das Nações”, denominação que explicitamente sugere um tom “celebratório”. Falamos aqui em dois contextos históricos/teóricos bem distintos.

      Com certeza “o preconceito nem sempre existe, na maioria das vezes esta nos olhos de quem vê!”. No entanto precisamos lembrar que o “preconceito” muitas vezes também existe e muitas destas vezes está também no ‘coração’ de quem o sente!
      Muito obrigado pela visita ao nosso blog e pelo seu comentário.

      (P.S.: Quando ocorre a Festa das Nações em Campinas? Nesse evento tem algum represantante de Nações Africanas? Ficamos curiosos…)

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