Como o Canal Universal Está Matando a Série “The Good Wife” Para os Fãs Brasileiros



The Good Wife (“A Boa Esposa”, em tradução literal), é uma das melhores séries criadas na recente leva da nova dramaturgia de TV estadunidense, marcada por um roteiro muito bom, excelentes atores, e pela produção quase que cinematográfica. Mas sendo uma produção da TV aberta, CBS, a série não ultrapassa os limites do aceitável como “A Família Soprano” o fez no canal fechado HBO. Mas mesmo assim prova que é possível fazer algo de boa qualidade sem nudez e sem o uso constante da palavra fuck (que significa “foda” no português).

Para quem ainda não se recuperou do trauma causado com o cancelamento da série Law&Order (Lei e Ordem) algum tempo atrás, terá um pouco de conforto em A Boa Esposa, digo, The Good Wife, um ótimo drama politico/drama de tribunal.

Mas além de mostrar a rotina tumultuada de uma advogada, mãe, e esposa de um político adúltero, um elemento bem interessante da série é a abordagem das novas tecnologias parte do dia a dia do mundo atual, principalmente o nosso dia a dia virtual, ou a nossa rotina cibernética. A internet faz parte dos episódios seja pela abordagem das redes sociais, do compartilhamento de fotos e vídeos, dos bitcoins, como também pela referência do ativismo do grupo Anonymous a favor de uma vítima de estupro. Sem fazer um grande alarde sobre esses tópicos, o roteiro apenas os incorpora da mesma maneira que hoje o mundo se adapta ao uso dessas tecnologias.

Alerta Estraga Prazer!: O conteúdo abaixo revela fatos importantes da 5a. temporada!

Mas a adaptação às novas tecnologias não parece ser uma preocupação do canal Universal, que transmite a série no Brasil, já que, ironicamente, a internet é bem mais eficaz em difundir o conteúdo produzido pela própria televisão. A Universal Brasil demorou muito, mas muito mesmo para exibir a 4a. temporada, irritando muitos fãs da série—inclusive eu—para finalmente inciá-la em setembro de 2013 com um ano de atraso. Neste mesmo mês, estreava a 5a. temporada da série nos Estados Unidos, que terminará em maio deste ano.

Para quem tem o mínimo domínio da língua inglesa, ou sabe como achar o site certo para saber de suas séries favoritas em português, não foi difícil saber da grande virada que acontece na 5a temporada. Agora, pelo fato de nem sabermos ainda quando a 5a. temporada da série irá ao ar por aqui, e por já sabermos que um dos personagens principais da série morre, a Universal (mesmo que não intencionalmente) sacaneia os fãs de Alicia e Cia. aqui no Brasil.

Enquanto grandes filmes de Hollywood já estão sendo lançados quase que simultaneamente nos Estados Unidos e várias outras partes do mundo, inclusive no Brasil, o canal Universal pisa na bola bem feio quando deixa o telespectador na mão quando atrasa o início da temporada de uma série de sucesso por um ano. Pode parecer uma reclamação boba, e é, principalmente se compararmos esta reclamação com os reais problemas que o Brasil e o mundo estão passando.

Contudo, quando ligamos a televisão para vermos a nossa série favorita, talvez o façamos para tirar uma folga de todos os problemas reais e mais sérios, e assim, carregarmos as energias para voltarmos a lidar com aqueles problemas reais, sérios e tão difíceis de esquecer—esta, na verdade, é uma boa definição do quê é, e para o quê serve o ramo do Entretenimento.

E é quando o canal Universal atrasa por um ano a transmissão das temporadas de um seriado de sucesso, prova-se que a alta tecnologia de comunicação não está sendo utilizada de maneira adequada. A HBO Brasil, por exemplo, fez a estreia da série “True Detectives” no mesmo dia em que ela estreou nos EUA, e todos os 8 episódios foram transmitidos simultaneamente. Valeu a pena para o público? Claro que sim, e talvez este seja um modelo a ser seguido.

Uma vez que os canais fechados quase não produzem seriados brasileiros, não empregam muitos roteiristas e nem muitos atores brasileiros, seria de bom tom honrar a transmissão dos enlatados, principalmente quando o enlatado é de ótima qualidade e garante audiência. Interessantemente, isto também estimula a tendência de se usar a internet como substituto a televisão, o quê não deveria ser de interesse de um canal de televisão, economicamente falando.

Quando as notícias atravessam fronteiras tão rápido como a velocidade da luz (exagero, mas ainda assim elas são rápidas), fica chato não ter a mesma velocidade presente nos canais que transmitem entretenimento que, inevitavelmente, se tornarão notícias. Talvez o público brasileiro que ainda é dependente da televisão deverá se contentar hoje com a mera notícia da morte de Will Gardner, para só em setembro de 2014 (?) começar a entender como essa saída de um personagem central na trama acontece—período no qual a 6a. temporada certamente estará estreando nos EUA.

Foi recentemente revelado que no ano passado o ator Josh Charles já havia expressado à produção da série o seu desejo de dar adeus a Will Gardner para realizar outros projetos profissionais. E por isso seu personagem morre vítima de um tiroteio no tribunal durante um julgamento. E isso é normal porque esta não é a primeira vez que uma morte repentina termina com a vida de um personagem de TV. E para quem quiser saber mais sobre como Will Gardner deixa a série, visite o site Série Maníacos. E quem estiver interessado, o Youtube também já tem um vídeo da cena:




Mas a pergunta fica: Por que a 5a. temporada ainda não tem data prevista para a sua transmissão no Brasil? Em 26 de agosto de 2013, o site Ligado em Série explica que o atraso de um ano para a transmissão da 4a temporada se deu “em virtude de negociações com o estúdio, segundo a assessoria” do canal Universal. Será que os diretores do canal já conseguiram “negociar” a 5a. temporada?

Caso a resposta ainda não exista, uma coisa fica clara, recorrer a internet se torna uma alternativa para muitos que não tem mais saco para esperar. A Netflix e outros sites claramente irão ganhar com essa pisada de bola da Universal Brasil e com certeza, em um futuro bem próximo, se tornarão uma grande e boa alternativa a TV paga. TV que pagamos e que nos desgasta com uma enorme quantidade de publicidade comercial.

A Universal Brasil mostra como a interação da televisão com a internet ainda é baseada em ter e manter uma website bonita, limpa, cheia de fotos, mas que não informa a sua programação adequadamente.


A Série The Good Wife

A série foi criada por Robert e Michelle King, e tem como um dos produtores executivos, o renomado diretor inglês Sir Ridley Scott (diretor de filmes como Alien, Blade Runner, Prometheus, Gladiadores), o que dá à série um ótimo selo de qualidade.

A trama é centrada na vida da advogada e mãe Alicia Florrick, interpretada por Julianna Margulies (E.R.), casada com Peter Florrick, interpretado por Chris Noth (Law&Order, Sex and The City), um Procurador de Justiça que é preso após um escândalo envolvendo corrupção, e sexo com prostitutas. Com o marido na cadeia, Alicia é obrigada a retomar sua carreira de advogada, após um hiato de 13 anos dedicados a tarefa de mãe. A série foi inspirada parcialmente no escândalo envolvendo o ex-governador do estado de Nova York que renunciou o cargo após um escândalo envolvendo uma prostituta classe A—que ironicamente havia conseguido projeção política graças a sua atuação enquanto Procurador de Justiça daquele estado combatendo prostituição—, além de uma lista de políticos envolvidos em escândalos sexuais, incluindo Bill Clinton.

Alicia encontra trabalho em uma firma de advocacia, Lockhart & Gardner, que tem como um dos sócios principais uma antiga paixão dos seus tempos de faculdade de direito, Will Gardner, interpretado por Josh Charles (de Sociedade dos Poetas Mortos), com quem, após muita relutância ela tem um rápido e frenético romance durante sua separação do marido.

E é na firma de advocacia que ocorrem as tramas principais de cada episódio, ou seja os dramas de tribunal. É também nesta firma que se encontram dois dos melhores personagens centrais da série: Diane Lockhart, a outra sócia da firma, interpretada pela grande e versátil atriz Christine Baranski (Mamma Mia), e Kalinda Sharma a investigadora da firma, interpretada brilhantemente pela atriz inglesa Archie Panjabi (Driblando o Destino). Isso sem mencionar a interpretação fantástica de Zach Grenier do personagem David Lee, o explosivo e rude chefe do setor de litígio de família. Na agência, Alicia logo encontra a rivalidade do jovem advogado Cary Argos, vivido pelo ator Matt Czuchry, pois como dois advogados associados da firma, Gary quer se destacar diantes os sócios. Mas os dois logo encontram uma maneira de agir como bons colegas de trabalho.

Nesta última 4a temporada, Lockhart & Gardner sai de um período de falência decorrente da depressão econômica iniciada em 2008, e é claro, de uma má administração. Com isso, durante o período de falência um juiz aponta um interventor/curador que trabalhará na firma representando seus credores, na tentativa de estabilizar a tal crise financeira da firma. Este interventor é interpretado pelo grande Nathan Lane (das novas versões de Os Produtores, e de The Birdcage - A Gaiola das Loucas). Também nesta temporada, Peter Florrick esteve em campanha para a disputa Governo Estadual de Illinois, e continua contando com o apoio de sua boa esposa, inclusive durante um novo rumor de infidelidade do maridão. Peter ganha as eleições através de uma fraude, e somente Will e Kalinda sabem.

No início da temporada, a série foi toda sobre Kalinda Sharma. A chegada de seu marido, a relação tumultuada que se deu bem no clima “entre tapas e beijos”, e depois o sumiço dele, foi o drama dado a personagem nesta temporada. Após o sumiço de seu marido—tudo indica que ela “sumiu” com o marido—, Kalinda passou meio que para segundo plano durante a temporada.

A partir deste ponto, a temporada focou em Alicia Florrick que sofre uns golpes em sua vida profissional. Devido a crise na firma, um baixo astral se instala quando Alicia e outros advogados associados são convidados a se tornarem sócios—processo que demanda um pagamento alto como investimento na firma, e a firma precisa de dinheiro. Quando a crise termina, o convite é convenientemente retirado já que a maioria dos sócios não pretende dividir os lucros da firma. Alicia, então, como somente em pouquíssima vezes na série, roda a baiana. Cary Argo tem a ideia de abrir uma firma com Alicia e ela chega a se animar com essa possibilidade.

Mas os sócios resolvem contratar somente um deles, Alicia, para acalmar (controlar) o ânimo (raiva) do grupo. Ela aceita e se torna sócia, mas fica claro que Alicia não apreciou a jogada dos sócios majoritários, e além disso ela começa a perceber que a Lockhart & Gardner não é muito favorável aos direitos trabalhistas de alguns de seus empregados, como as secretárias que trabalham sem ganhar hora extra e outros benefícios—e isso irrita a “boa” esposa. A temporada, então, termina com Alicia aceitando o convite de Cary e entra na empreitada dele e dos outros associados de largarem a Lockhart & Gardner para abrirem sua própria firma de advocacia.

Até agora a série não desapontou em nenhum aspecto. As tramas ainda prendem a atenção, e os atores ainda mantém um alto padrão de atuação. Um outro aspecto que continua intacto, e que parece ser uma das forças-chefe de seu sucesso, é a força dos personagens femininos.


c&p


Fonte: A.V Club; Universal Channel-O Globo, Wikipidia, Adoro Cinema, IMDb



4 comentários:

  1. Não sei se o texto escrito é uma forma de interceder pelo público brasileiro de uma forma geral que acompanha a série via TV, ou mesmo, apenas como um desabafo de um fã (que tbm assiste via TV, rsrs), em todo caso, é nesse ponto que o download ilegal se fortalece. Eu acompanhei a série até essa atual 5º temporada apenas através do download via torrent e obviamente, não tenho do que reclamar. As grandes empresas do ramo que tanto criticam essa forma "ilegal" de obter entretenimento deveriam fugir do obvio e enfim se reciclar. Se continuar dessa forma, a busca pelos sites de compartilhamento ira crescer desenfreadamente e se hoje é praticamente impossível deter isso, imagina no futuro. Sem esquecer de um "pequeno" detalhe que pode evoluir ainda mais e implicar cada vez mais com as CBS's da vida...uma coisa chamada Netflix.

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    1. LMW, o texto publicado foi escrito por um grande fã da série (rsrs), mas tenta também vocalizar uma frustração que, com certeza¸ pode ser uma frustração de um grande números de fãs brasileiros. Acho que você resumiu muito bem o quê está para vir no futuro desta batalha entre TV, internet, e pirataria. Obrigado pelo comentário.

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  2. Não pode esquecer que TV é um negócio, e as vezes o preço de se ter a veiculação simultânea não compensa... quem quer saber o que acontece na 5ª temporada, basta baixar a série por torrent ou mesmo ler matérias como a sua cheias de spoilers... pra mim sua matéria serviu bastante: - Pra eu saber que a séria é razoável, e com os spoilers da última temporada sei que nunca vou perder tempo para assisti-la, com tantas outras disponíveis e com avaliações acima de medianas...

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    1. Pois é Paulo, a televisão é um negócio e talvez por isso não deveria estimular seus clientes a recorrem a ‘pirataria’—que é exatamente o contrário da visão empresarial que tenta o máximo possível atrair público, e não afastá-lo, e é isso que nosso texto argumenta. (Desculpe-nos mas não entendemos o porque da veiculação simultânea, ou quase simultânea, de um produto de sucesso não sendo economicamente viável e lucrativo.) Gostamos de lembrar que sempre será bom e saudável conferir qualquer tipo de produção artística para assim descobrir se esta nos agrada ou não, pois ‘gosto’ é um sentimento individual que, claro, pode ser coletivizado—e The Good Wife tem uma ótima recepção de crítica e público que vai muito além de mediana. Ainda, é também muito bom saber que não sou o único que não resiste a tentação de um “Alerta Estraga Prazeres” :) Valeu o comentário, Paulo.

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